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sábado, 31 de outubro de 2009

Rui Mourão na Academia




Dia 29 de outubro, à noite, compareci à posse solene do romancista Rui Mourão, nome fundamental da cultura mineira, na Academia Mineira de Letras. Chovia fino. Chovesse canivete participaria do mesmo jeito, em retribuição à presença do escritor (e a inseparável e elegante esposa) ao lançamento do meu Mosaico insólito, em noite chuvosa de dezembro de 2006. Nesse livro de crítica, diga-se de passagem, Rui Mourão ombreia com Drummond, os únicos aos quais dedico dois artigos. Isto basta para remeter o interessado em conhecer a importância do autor na literatura brasileira, desde o romance Raízes (1956), passando pela revista Tendência (1957) e romances fundamentais para a compreensão da cultura mineira e brasileira, como Curral dos crucificados (1971), Cidade calabouço (1973), Monólogo do escorpião (1983), Boca de chafariz (1991), Invasões no carrossel (2001).

Rui Mourão foi saudado por Angelo Osvaldo de Araújo, escritor e prefeito de Ouro Preto, que, em arroubos de contorcionista, tentou configurar o último romance do recém empossado (Quando os demônios descem o morro), sobre o qual comentei aqui, como suprema síntese da produção do autor. Discordo, mas não vem ao caso. A realização que poderia ser invocada como síntese do romancista, a meu ver, é Boca de chafariz. Rui Mourão proferiu um discurso esplêndido e brilhante; discorreu sobre o percurso pessoal e do grupo de Tendência, discutiu a atual crise da literatura, a relativização de seu papel na cultura contemporânea e os impasses com os quais convive o escritor empenhado ideologicamente.

A entrada de Rui Mourão na AML é uma entre as inúmeras atuações positivas do atual presidente da AML, o renomado biógrafo e romancista Murilo Badaró, no sentido de promover a instituição, como centro aglutinador de arte e cultura, no âmbito das comemorações do seu centenário. À gestão dinâmica de Murilo Badaró, deve-se a recente visibilidade da agremiação, após décadas de apagado percurso, apesar de agregar nomes importantes da literatura brasileira, hoje (Antenor Pimenta, Bartolomeu Queirós, Fábio Lucas, José Bento Salles, M. Badaró, Yeda Prates Bernis) no passado (Ciro dos Anjos, Henriqueta Lisboa, José Afrânio Moreira Duarte, entre outros). Merece registro o romance publicado recentemente pelo presidente da Casa, Memórias póstumas de Francisco Badaró.

O moderno auditório, construído ao lado da sede da instituição (foto), ficou lotado, com personalidades do mundo das artes, universidade e das letras. Murilo Badaró anunciou outros eventos ainda para 2009, como uma exposição e o lançamento da coleção dos livros do centenário, no total de cinco. Vamos ver quais os títulos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Curiosidades sobre prêmios literários



Em debate a segunda premiação em concurso literário. Considerado por alguns como meio prêmio, ou prêmio de consolação, o segundo lugar faz jus a quantia financeira inferior à do primeiro lugar, quando é o caso. Na cultura portuguesa, a tradição confere ao segundo lugar uma importante e ilustre linhagem. Duas das maiores expressões literárias lusas (um na prosa, outro na poesia) tiveram obras estigmatizadas por terem tido a segunda premiação em concursos literários: Eça de Queirós e Fernando Pessoa.

Eça de Queirós teve a segunda premiação com o romance A relíquia, (1884), em que o fantástico se mistura ao satírico. Sobre o autor, escreveram-se inúmeros livros, é autor que exerce grande influência sobre outros escritores, em Portugal e no Brasil. Sobre sua obra debruçaram-se exegetas notáveis dos dois lados do oceano: o primeiro brasileiro a escrever no Brasil sobre um de seus romances (O primo Basílio) foi Machado de Assis. A avaliação definitiva é de Antônio J. Saraiva e Oscar Lópes: “Eça de Queirós é talvez como prosador a mais completa, multifacetada e apurada organização de artista de toda a literatura portuguesa” (SARAIVA; LÓPES, 1955, p. 932).

O caso relacionado com Mensagem, de Fernando Pessoa, reveste-se de alguma indignação, a princípio, e discutível compreensão, quando se analisa o contexto histórico do concurso. Era um torneio oficial, promovido pelo serviço de propaganda da ditadura salazarista. O primeiro lugar foi atribuído ao livro de versos religiosos Romaria, assinado por um padre, cuja notoriedade deve-se justamente a tal circunstância. Mensagem, o único livro que o criador dos heterônimos viu editado, ficou com o segundo galardão.

Na literatura brasileira, o caso mais famoso envolve Sagarana, de Guimarães Rosa: em sua primeira versão, em 1937, com mais de 500 páginas, submetido ao prêmio Graça Aranha, da Editora José Olimpio, foi classificado em segundo lugar. Após alterações radicais, foi publicado em 1946, com 300 páginas.

No ano passado, no Brasil, o romance O filho eterno, de Cristóvão Tezza (foto acima), conquistou os quatro maiores prêmios literários (Jabuti, Portugal Telecon, São Paulo, Passo Fundo), abiscoitando em torno de R$ 500.000,00 reais.

SARAIVA, Antonio José; LÓPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Ed., 1955.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Suplemento Literário de Minas Gerais


Voltou a circular o SLMG

De visual novo, concepção gráfica limpa e arrojada, está de novo na praça o Suplemento literário de Minas Gerais. Ou melhor, o SUPLEMGNTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS. Assim mesmo. Ao inscrever no logotipo a marca oficial do Estado de Minas (MG), o atual editor sinaliza a intenção de retomar a sua vertente criativa, nos moldes como foi concebido por Murilo Rubião em fins dos anos sessenta do século passado. Sem ignorar que se trata de um patrimônio cultural do Estado. Inteligente forma de estreia, a escolhida por Jaime Prado Gouvêa, na medida em que delimita duplamente os motivos (e as fronteiras) de sua intervenção: inovação, sim, mas aquela possível, em vista da chancela oficial.

Jaime Prado Gouvêa, além de excelente ficcionista, entre os vinte melhores do Brasil, como registrei em matéria aqui (http://wwwideiasubalterna.blogspot.com/2009/08/o-conto-brasileiro-contemporaneo-iv.html), é uma das pratas da Casa Suplemento, a ela conduzido, quase garoto nos anos 70, pela escolha criteriosa e exigente do fundador. O autor de Fichas de vitrola foi duas vezes injustiçado: no Jabuti de 2008, ficou entre os três indicados na categoria conto; em 2001, no concurso da Revista Literária 6 da UFMG, obteve o segundo lugar. Merecia o primeiro lugar, nos dois certames. No último evento, esse lugar foi meu, com “Imenso, cego, brutal”, reproduzido integralmente alhures. Os prêmios têm lá seus mistérios. Sempre que reencontro o Jaime, ele é que relembra o fato em tom de brincadeira. Tudo vem ao caso para outro registro, este para referir que, mais do que merecida, sua nomeação para dirigir o Suplemento Literário confirma outra tradição mineira: delegar a gestão cultural a alguém da área, no caso, um grande escritor, como se deu no passado, com Murilo Rubião, Affonso Ávila, Rui Mourão, Wander Pirolli.

O número especial tem como tema a recepção da literatura brasileira na Espanha, um produtivo esforço de aproximação das duas culturas, mostra do caráter receptivo da atual editoria aos diálogos transnacionais. Relevantes pesquisadores, autores e tradutores (focalizando a obra de Machado, Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Clarice e Manoel de Barros) são convocados para partilhar sua experiência como divulgadores de nossa cultura no chão ibérico. Entre eles, brasileiros, uruguaios e espanhóis, como Alessandra Carvalho, Elena Losada, Pablo del Barco, Ángel Crespo, Emir Rodríguez Monegal e Julián Ríos. Parte do brilho e colorido gráfico deve-se a Sara Ramos, artista plástica mineira e madrileña.

domingo, 18 de outubro de 2009

Relações intertextuais



Divulgo para confronto, discussão e análise, à luz do conceito de intertextualidade, dois textos de autores portugueses contemporâneos. Embora de gêneros diferentes, os dois textos estabelecem um diálogo intertextual. De um lado, um texto de ficção experimental, assinado por Almeida Faria.


“ ... meu rosto procura teu rosto no anônimo rosto da multidão assim talvez passe por ti talvez esteja ao pé de ti e apesar de tudo não te vi e o zero que vou na minha origem caminhando às cegas para um zero igual apodera-se de mim numa vertigem vertiginosamente viva vertical e de tudo que sou e que me falta ser resta-me só esta cadenciada vil respiração a que por convenção ouço chamar viver a minha voz tentando superar o peso esquizotímico dos passos ergue-se a custo contra o tempo mudo em seus gritos agudos e em tudo me mudo no átomo no corpúsculo na onda nos quanta ...”

FARIA, Almeida. Rumor branco. 2. ed. Lisboa: Portugália, 1970, p. 78.


De outro lado, um poema de Hélder Moura Pereira, um dos integrantes de Cartucho (Lisboa, 1976), autor ao qual dediquei um esboço de análise no livro Portugal, poetas do fim do milênio (Rio de Janeiro: Sette letras, 1999):

“Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria ao teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta” (...).


PEREIRA, Hélder Moura. Os tranquilos sobressaltos. Porto: Gota de Água, 1982.

Não se trata de cotejar a angústia da influência, mas perceber como os dois textos apresentam marcas que os aproximam, certa atmosfera cosmopolita, notas de solidão, a subjetividade magoada, a linguagem sincopada. O conceito de intertextualidade foi desenvolvido por M. Bakthine e recebeu contribuições de vários estudiosos, entre os quais, Julia Kristeva, Gérard Genette, Tzvetan Todorov. Conceito fundamental nos estudos de literatura comparada, a intertextualidade pressupõe a literatura como instrumento de comunicação de experiência humana e estuda as relações semânticas e estruturais entre os textos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A tendência interdisciplinar da ciência moderna

Imagem extraída de: http://joseantunes.wordpress.com/2007/01/09/borboletas/

Não constitui novidade para ninguém minimamente informado que o conceito de ciência, na sociedade contemporânea, adiciona cada vez mais a necessidade de expansão e a tendência interdisciplinar do saber moderno. A crescente evolução dos meios de comunicação, aliada ao intercâmbio dos bens culturais e à consciência da preservação da natureza, elabora continuamente uma agenda de ações e metas, tanto no plano dos Estados como no das instituições, voltada para as trocas de experiências e análises aprofundadas. Os grandes desafios a que estão sujeitos os diversos povos do planeta, seja na manutenção da atividade produtiva, seja na defesa diante das catástrofes naturais, demandam cada vez mais a integração de esforços e a disponibilização do legado empírico de todos os grupos humanos. O sociólogo português Boaventura de Souza Santos, em Pela mão de Alice, descreve o perfil de um novo paradigma sócio-cultural, para o contexto pós-moderno, apresentando as condições sociais de sua emergência:

O projeto sócio-cultural da modernidade é um projeto muito rico, capaz de infinitas possibilidades e, como tal, muito complexo e sujeito a desenvolvimentos contraditórios. Assenta em dois pilares fundamentais, o pilar da regulação e o pilar da emancipação. São pilares, eles próprios, complexos, cada um constituído por três princípios. O pilar da regulação é constituído pelo princípio do Estado, cuja articulação se deve principalmente a Hobbes; pelo princípio do mercado, dominante sobretudo na obra de Locke; e pelo princípio da comunidade, cuja formulação domina toda a filosofia política de Rousseau (SANTOS, 1999, p.70-71).

A importância da área jurídica para a disseminação e efetiva consolidação dos objetivos intrínsecos do que o sociólogo denomina “pilar de regulação” é fundamental; as bases teóricas de sua formulação, desde o seu nascedouro, englobam figuras tutelares da reflexão sobre o Direito. No entanto, o primado do saber jurídico não é absoluto, em função da complexidade das relações humanas e da sofisticada diversificação das áreas envolvidas:


Por sua vez, o pilar da emancipação é constituído por três lógicas de racionalidade: a racionalidade estético-expressiva da arte e da literatura; a racionalidade moral-prática da ética e do direito; e a racionalidade cognitivo-instrumental da ciência e da técnica. (...) A racionalidade estético-expressiva articula-se privilegiadamente com o princípio da comunidade, porque é nela que se condensam as idéias de identidade e de comunhão sem as quais não é possível a contemplação estética. A racionalidade moral-prática liga-se preferencialmente ao princípio do Estado na medida em que a este compete definir e fazer cumprir um mínimo ético para o que é dotado do monopólio da produção e da distribuição do direito (SANTOS, 1999, p.71).

O mundo contemporâneo reclama de forma incisiva que a ciência jurídica incorpore cada vez mais uma dimensão social, posicionando-se como um dos vetores de transformação da sociedade. Renomados especialistas têm expressado o intento de se repensar a Ciência do Direito, tradicionalmente compreendida como um conjunto de teorias sobre as normas vigentes numa sociedade e sua prática operacional na solução de conflitos. Entre os estudiosos questionadores da excessiva ênfase dada ao aspecto regulador do Direito, situa-se Miraci B. Gustin, quando afirma:

A ciência jurídica contemporânea apela à razoabilidade, ao conhecimento crítico e à reconceituação do ato justo. Suas formas de produção do conhecimento são discursivas e seu conjunto de complexos argumentativos trabalha com a validade dos argumentos por sua relevância prática e sua capacidade de emancipação dos grupos sociais e dos indivíduos (GUSTIN, 2006, p.11).

A mudança de rumos na Ciência do Direito passa pelo aprofundamento de sua relação com disciplinas de domínio conexo, tais como a Sociologia, a Filosofia, a Antropologia, a História, a Economia, e (por que não?) a Literatura, a Biologia e a Ecologia. As duas últimas são imprescindíveis na formação do novo profissional, o consultor ambiental, ou seja, o advogado formado com ênfase em questões ecológicas. A Bioética, por sua vez, oferece subsídios, em questões atinentes a intoleráveis experimentos que envolvem a biotecnologia, tendo em vista a possibilidade de sua aplicação em atividades terroristas. A Literatura oferece riquíssimo repertório de narrativas que envolvem o ser humano, em situações singulares e extremas de conflitos e emoção. Se a arte nos torna mais humanos e sensíveis e se o Direito nos encaminha para a ética e a justiça, a cooperação das duas instâncias será produtiva e emancipadora. Muito mais do que representar a realidade visível, a arte muitas vezes afasta-se dos limites do real, daquilo que se nomeia e tem forma, buscando, nas formas e linhas soltas do caos, elementos capazes de dar-lhes corpo. As obsessões oníricas e as associações inesperadas do surrealismo são capturadas através da palavra, que lhes transfere sensações táteis, sonoras, visuais. A mesma autora, Miraci Gustin, reconhece a importância da postura interdisciplinar e do diálogo entre as disciplinas, numa sociedade cada vez mais complexa:

Até muito recentemente (meados do século XX), predominaram a unidisciplinaridade e a metodologia monográfica, que não pretendiam uma visão de totalidade. No pós-guerra, ocorre uma mudança de rumos. A realidade, cada vez mais complexa, é problematizada e experimenta-se a institucionalização da pesquisa. O enfoque das pesquisas deixa de ser monológico e, no primeiro momento, assume uma vertente da multidisciplinaridade, ou seja, de cooperação teórica entre campos de conhecimento antes distanciados (GUSTIN, 2006, p.8).

Boaventura S. Santos elabora com muita lucidez a interessante alegoria da ave da ciência: esta ave, segundo ele, voa mal e perigosamente porque uma asa tem “tirocínio crítico” e voa alto, enquanto a outra asa voa baixo, dada a sua “vocação de cumplicidade”. O nosso desejo é que o Direito, saber em si mesmo multifacetado, funcione, no âmbito das outras áreas, como pêndulo de equilíbrio entre as duas asas: e sobretudo nos faça compreender que a Ciência é, sim, uma conquista do espírito crítico, mas sem contribuir para a alienação corrosiva, a indiferença cínica ou a desumanização.

GUSTIN, Miraci B.S. (Re)pensando a pesquisa jurídica. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.
SANTOS, Boaventura Sousa. Pela mão de Alice. 7. ed. Porto: Afrontamento, 1999.

sábado, 10 de outubro de 2009

Confidência do forasteiro



(Imagem do centro histórico de Itabira, extraída de Agência Fiocruz de notícias)

Confidência do forasteiro

Lamente o poeta tuas noites brancas,
varridas de vento frio, sem mulheres e horizonte,
afixando na parede teu doído retrato.

Aqui chegados,
meus pés forasteiros palmilham tuas ruas híbridas,
de pedra, minério e asfalto,
teus passeios picotados de cimento, areia e brita.

Os casarões e igrejas de guirlandas barrocas
apontam um tempo de bandeiras ao vento,
em que o ouro escondia liberdade, fortuna e fé.
Os olhos procuram a continuação do morro,
atrás de barrancos ornados de esparsas árvores decorativas:
só encontram grotas decepadas, serras devastadas,
rasa lagoa suja de dejetos e água inquinada.
Deste ao mundo o fazendeiro do ar,
o artífice paciente das palavras:
seus versos derramam saber, manhãs de luz
driblam pedra no meio do caminho.
Deste também ao vasto mundo a Mina:
seus lucros e dividendos rendem
centenas de emprego, de engenheiros a vigilantes,
praças de esporte e coretos inócuos.
Os olhos forasteiros percebem ouvidos à força habituados
a estilhaços de dinamite,
as rachaduras das casas,
o olhar opaco de velhos acometidos de asma e bronquite,
os bilhetes fragmentados de jovens suicidas,
enquanto vagões trafegam carregados de minério a caminho do Oriente.

sábado, 3 de outubro de 2009

Contemplação



Um livro por mês:


Após longa experiência em diversos concursos literários, Terezinha Pereira alcançou, com Em confidência, delicada novela ambientada em Ouro Preto, menção Especial no prêmio Octavio de Faria para livro inédito de 1998. O interesse por lugares históricos é um traço saliente, mencionado no prólogo do conto “Um dia, um enigma”, do segundo livro de ficção: “Desde jovem teve hábito de procurar conhecer e apreciar obras de cunho histórico e artístico durante os poucos períodos de ociosidade permitidos pelo trabalho. Visitar e revisitar cidades históricas, caminhar em suas ruas e ladeiras descobrindo segredos era seu grande prazer”. A novela Em confidência foi publicada em 2000, pela Mazza, de Belo Horizonte. Recebeu a Autora no ano seguinte um prêmio de tradução (Livro aberto/Xerox do Brasil), por A última folha (Cone Sul, 2001), versão do conto The last leave, do norte-americano O. Henry. Contemplação, o segundo livro, objeto deste comentário, é uma coletânea de contos, treze, para combinar com a temática gótica (estórias de assombração) presente em alguns trabalhos.

O conto que abre e nomeia o conjunto, apesar de um tom coloquial às vezes excessivo (como no final da seguinte frase: “Vivia numa minúscula ilha lembrada de Deus e esquecida do mundo, lá pros lados do nordeste”), é um dos pontos altos do livro. Com poucos recursos, bem explorados, a autora consegue urdir uma cena arquetípica, configurando um contexto fundamental com uma pitada de mistério e um apelo mítico. Takes precisos e poéticos iluminam o encontro amoroso entre a moça que vivia isolada numa ilha e o desconhecido que ali aporta num barco e depois desaparece. Nada é gratuito, os objetos descritos cumprem exemplarmente uma função na narrativa, como nesta tomada: “Dentro do barco, deitado, não sabia ela se morto ou não, usando apenas um calção preto, estava um homem diferente de todos que ela já havia conhecido. Junto dele, agarrado que nem uma criança, uma coisa grande, esquisita, que luzia como ouro”. Os tópicos focalizados aos poucos se encaixam e se complementam, como em câmara lenta, carregados de significado: “Fazia-se mudo, olhando a noite. Sem incomodar pessoa alguma, foi ficando. Com a música do seu saxofone contribuía para aumentar a magia do espetáculo do anoitecer”.

Outro momento de intensa voltagem de sentidos é a narrativa especular “Um dia, um enigma”. As aproximações com o fantástico, o jogo entre as sucessivas visões recriam a “estranha inquietude” referida pela psicanálise freudiana, explorando a duplicidade e a fantasia. Um garoto na praia vê um velho emergindo de um barco, o velho confunde-se com o velho da estátua do santo pescador, ao qual se que mistura a visão do homem que parece com o santo, em encadeamentos geradores da ideia de duplicidade. Por estar “mudando a voz”, o garoto é flagrado num momento de extrema agitação e espanto, numa zona fronteiriça da loucura. “Estava certo. Aquele espectro, que um dia ele havia visto se transformar em figura de pescador, era o mesmo homem da estátua de São Pedro Arrependido e o mesmo homem que então avistava chegar de barco, através da janela do restaurante”.

A coletânea, no entanto, apresenta um conjunto irregular de peças. A carpintaria nem sempre é perfeita, o tratamento dado à linguagem repete alguns chavões convencionais. “Ao caminhar pela praia com a mulher de meus sonhos, gozando da alegria do vento que chegava mais forte com o cair da noite e da suave cadência das ondas do mar, imaginei que, enquanto não conseguisse decifrar o mistério de seus segredos, ela seria a mulher de meus sonhos”. O conto é um gênero muito exigente. Alguns são bons, como os dois referidos, “Contemplação” e “Um dia, um enigma”, além de “Uma vez, uma fonte”, “A bola de vez”, “Tormento” (ninguém merece uma vizinha semelhante àquela descrita). Seguem-se outros três de regular fatura; o restante, porém, não atinge o patamar mínimo do plot ficcional. O terma do cidadão que foge da agitação urbana para se refazer na praia, em contato com a natureza, nada tem de ficcional, é assunto (desgastado) para crônica. O mesmo se pode dizer do reencontro de três amigas de colégio de freira, chamadas Maria. O espaço privilegiado da escrita de Terezinha Pereira é um espaço atravessado por gestos humanos essenciais, em que o desenvolvimento intimista da intriga depura o ambiente e a linguagem. Percebe-se inegável talento, além de percepção de conflitos, captação da dimensão humana, domínio de efabulação e de cenário; a questão restritiva fica por conta da linguagem, às vezes algo ultrapassada. A capa flagra uma inexpressiva e anódina imagem marítima. A edição infelizmente vem prejudicada por gralhas e incorreções gráficas inaceitáveis, a editora não tem rosto. Edições alternativas trazem riscos dessa ordem. O português apresenta-se por vezes claudicante, mas seria culpa exclusiva da autora?

PEREIRA, Terezinha. Contemplação. Itaúna: [S.n.], 2005.