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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Alexandre Herculano



Um vizinho doa-me uma coleção de livros de Alexandre Herculano, publicada pela Bertrand, sem data. Como se livrasse de incômodo entulho. Dezenas de livros encadernados, créditos em dourado, que na certa decoravam alguma sala ou escritório insosso. Caso o tio excêntrico (o primeiro doador) mencione interesse em folhear algum título, terá a informação de que está emprestado ao vizinho. A mim. Concordei com o pacto.


Numa apresentação, de Vitorino Nemésio, leio a data de l936. Faltam dois volumes da História da Inquisição, os romance O bobo e Eurico o presbítero, o ponto alto da produção ficcional do grande historiador. Falta talvez a parte mais interessante, a emocionante ficção de Herculano. Os dois últimos, tenho-os em outra edição. Quem ficou com os romances, fez uma escolha, merecedora de aplauso. Após a higienização e limpeza dos volumes, que totalizam trinta e dois, descobri uma verdadeira obra-prima, “De Jersey a Granville”, o relato do retorno de Herculano, junto de outros voluntários do exército da Rainha, da Inglaterra para a França, após o exílio político que o jovem soldado cumpriu. A viagem num barco pequeno, nomeado como chasse-marée, pequeno navio de dois mastros, (de acordo com o dicionário Domingos de Azevedo), enfrenta uma tempestade em alto mar, tendo o grumete que fazer à noite um aterramento forçado, por se quebrar a âncora. O relato deixa transparecer um tom mais de memória que de autobiografia, refinada elaboração literária, agradável surpresa. Uma frase retenho da primeira leitura: “Dois ingleses ridículos são indubitavelmente as duas cousas mais ridículas deste mundo”. Outra frase: “Aos vinte anos, a nossa alma, viçosa e virgem, tem afectos para derramar com mão larga por tudo o que nasceu e cresceu junto de nós; por todos aqueles que nos ensinaram a balbuciar as primeiras palavras e nos guiaram nos primeiros passos no caminho da vida”. O desenvolvimento dessa ideia acaba num mimo, nessa pérola, fresca e mediterrânea: “Para achar deleite em vaguear fora do nosso ninho paterno, é preciso haver passado a idade das esperanças; é preciso ter já calcado aos pés, inteiramente sugado, o pomo das ilusões, e assistir ao drama da existência, não como ator possuído do seu papel, mas como espectador indiferente, que sabe ser essa drama um embuste, algumas vezes atrativo, mas sensabor as mais delas; é preciso ser homem; e eu tinha então vinte anos”. Sem querer aplicar ao pensamento final o rigor escolástico, dizer que não se é homem até os vinte anos, quando sabemos que o que está em foco é de outra natureza, não deixa de ser inesperado ler isto em Alexandre Herculano, tido como uma reserva moral, uma das glórias de Portugal. Aos vinte anos não se tem maturidade suficiente para suportar algo tão cruel como o exílio. A fama de sisudo, carrancudo, solene sofre um abalo. Corro o risco de alçar da matéria principal o que é acidente, mas não pretendo aprofundar análise, nem hesito em fazer o recorte. É uma reflexão ao correr da pena. Que tem sua graça, lá tem.

De imediato, percebo haver alguns volumes de nenhum interesse para o homem do século XXI, pelo menos uns três volumes de cartas (versando assuntos do cotidiano, a colheita e fabrico de azeite, a colheita de abóboras, peras, encomenda de dinheiro, reformas de prédios e obras de alvenaria). Alguns “opúsculos” aparentemente anódinos, dissertando temas excessivamente pontuais e datados, como o anticlericalismo do autor, a emigração, as congregações religiosas, a relevância das casas pias, além de reflexões a respeito de contextos bastante miúdos, opiniões sobre obras menores da literatura portuguesa, revelam pleno domínio das potencialidades argumentativas, o gosto pela polêmica e a variada extensão de seu interesse. Na correspondência a amigos de Lisboa, estando em causa pequenos favores e diligências, não falta a referência ao rapaz (o serviçal) que porta os recados e as encomendas. Não se pode esquecer que o intelectual, a partir de determinada época, em que estava no centro das atenções, retirou-se à quinta de Vale de Lobos, para dedicar-se à atividade de agricultor e lavrador, fugindo às luzes e futilidades das grandes cidades (Porto, Lisboa). No entanto, é a obra (quase) completa do grande historiador. Percebe-se, mesmo numa aproximação breve, de voo de pássaro, que o autor mantém sempre uma tendência moralista, apontada por Nemésio: a arte para Herculano é arte de persuasão: “Por debaixo do poeta e do prosador sopitava um complexo de moralista”.

2 comentários:

  1. Esta sua narrativa é maravilhosa. Não sei se li uma ficção ou se o seu vizinho deu-te realmente uma coleção de livros de Alexandre Herculano. O que vale desse gesto é o texto e sua graça (como tem!). Além da sintonia que há para o leitor que passou da "idade das esperanças" e que calcou "aos pés, inteiramente sugado, o pomo das ilusões". Sinto que vc está escrevendo um livro ou, no mínimo, treinando para um futuro.

    Abraço

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    Respostas
    1. Adivinhão, hein? Na época escrevia, sim, um romance, agora concluído. Os livros do Herculano são um curtição à parte.

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