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terça-feira, 25 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo III



Vinte contistas dos anos 70

     Vinte contistas dos anos 70. Surgiram na época brincadeiras (algumas ásperas) no tocante ao boom dos contistas mineiros. Quase quarenta anos depois, é possível uma avaliação mais serena. Escritores paulistas, gaúchos e paranaenses (em escala menor) também surgiram com força naquele período. Ricardo Ramos teria sido o criador da lenda, envolvendo a saudável praga cultural que se cristalizou: a proliferação de contistas mineiros; dizia para não se chutar lata no meio da rua porque ela podia estar cheia de contistas mineiros. Alguma imprensa paulista, a cada autor de Minas lançado, insistia no mote: mais um autor mineiro. A ideia, subalterna e subliminar, era que, enquanto o carioca curtia a praia e o paulista ganhava dinheiro, o mineiro escrevia conto como se escrevesse soneto. Se a intenção era minimizar a importância do autor mineiro, o tiro saiu pela culatra. A própria revista Status, receptiva à boa ficção, chegou a editar um número exclusivo de contos mineiros eróticos (n. 105-A, abr. 1983), salientando a sua qualidade, ao registrar que os autores escreviam “admiravelmente bem” suas histórias.
     A rotulação da década de 70 como época de “vazio cultural” (Zuenir Ventura) carece de uma compreensão modalizada e de uma mais abrangente contextualização, sob o risco de serem descreditados a poesia marginal (Cacaso, Leminski), a consolidação do conto urbano e o Neoconcretismo nas artes. A falta de incentivo, a circulação restrita por conta de tiragens quase artesanais feitas por editoras de pequeno porte (o caso da extinta Interlivros, de Belo Horizonte), a repressão política (“os negros verdes anos”, segundo Cacaso) são aspectos a serem considerados na avaliação da produção cultural da época.
     Alguns estreiam como contistas, revelando-se depois brilhantes romancistas ou poetas. Outros escrevem exclusivamente contos. Não enveredam por outros gêneros. Podem até publicar romance, poesia ou ensaio, mas deixam explícita sua opção pela história curta. Esse aspecto reforça uma fidelidade ao gênero, algumas vezes reveladora de exclusividade.
     Os critérios da seleção de nomes, embora subjetivos, tentam erigir algumas balizas e pontos de apoio, privilegiando a qualidade, a originalidade e os marcos cronológicos. Determinados escritores surgem excessivamente marcados pelo epigonismo, dada a presença e diluição em seus textos de processos e temas antes tratados por autores seus contemporâneos. O limite temporal recortado (anos 70) abarca, em demarcação um tanto flexível, a produção lançada entre 1965 a 1979. Apesar de fluido, o recorte temporal origina-se um pouco antes. É preciso atentar para o advérbio de tempo. Nesse recorte, de tendência historiográfica, ligado à história da literatura, não são contemplados nomes surgidos depois do marco final.       Como João Gilberto Noll, cuja estreia ocorre nos anos 80 (O cego e a bailarina, publicado em 1980). (A entrada dos autores segue a ordem alfabética do primeiro nome).
     Caio Fernando Abreu é hoje um autor de merecida e considerável fortuna crítica. Resultante de sua adesão incondicional ao universo gay? Obviamente que não. A visão niilista misturada à ideologia das minorias, num contexto histórico e filosófico propício ao reconhecimento da diferença, em todas as suas manifestações, o ingrediente irônico, sabiamente dosado, o temperamento sensível ao malogro das utopias pós anos 60 e (por que não?), a tragédia pessoal contribuem, ao fim e ao cabo, para o crescente interesse em relação à sua obra. Seus principais livros compreendem basicamente contos: O ovo apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos mofados (1983), Os dragões não conhecem o paraíso (1988).
     Domingos Pellegrini é um contista admirável pela a força emotiva, o ritmo ágil, a linguagem coloquial, carregada de vivacidade, sensorialismo e sabor pitoresco, além do insuperável domínio no tratamento de dramas familiares e juvenis. Prêmio Jabuti em 1977, com O homem vermelho, ficou estigmatizado, de forma positiva, pela expressão do arroubo e iniciação sexuais de jovens, tema recorrente em outros livros (Paixões,1884 e Os meninos crescem, de 1986, em especial). Os dois livros merecem registro também pela edição esmerada e cuidada concepção gráfica. Em Os meninos crescem, quatro contos atestam alto nível de densidade técnica e espessura humana: “A noite em que encontrei meu pai”, “O aprendiz”, “A última janta”, “Subterrâneos”. São grandes realizações ficcionais, em qualquer língua do mundo.
     Duílio Gomes, hábil criador de atmosferas, quase sempre sufocantes, surpreende a crítica pela ousadia temática, linguagem direta e tom jovial, descontraído e irreverente de suas histórias, breves mas incisivas, presentes em O nascimento dos leões (1975), Verde suicida (1978), Janeiro digestivo (1983).
     Elias José explora o cotidiano, com uma linguagem abusadamente lírica, acoplada a uma temática urbana, com pitadas de realismo mágico, desde as incursões no chamado miniconto de A mal-amada (1970) e O tempo, Camila (1971) aos livros posteriores, Inquieta viagem ao fundo do poço (prêmio Jabuti em 1974), Um pássaro em pânico (1982), O grito dos torturados (1986). Hélio Pólvora embirrou com o rótulo de miniconto: “...o problema de encurtar ou alongar o conto não deveria preocupar Elias José. Ele é um desses ficcionistas que precisam de maior espaço gráfico. Sua forma de expressão, definida nas melhores peças de A mal-amada, impõe a montagem paciente, a superposição de detalhes emotivos e de constatações existenciais. (...) Neste sentido, seria conveniente que o contista enfraquecesse a fiscalização, ausentando-se o mais possível do texto, tirando do texto a impressão de coisa composta” (PÓLVORA, 1975, p. 154).
     Ignácio Loyola Brandão, a princípio tendo o jornalismo como atividade paralela (até 1982), conquistou um público fiel com suas histórias verticais e inquietantes, escritas em linguagem elegante, de funda e densa ressonância, tal como em Depois do sol (1965), Pega ele, silêncio (1976), Cabeça de segunda-feira (1983).

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