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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo IV


    1. Ivan Ângelo e Silviano Santiago, escritores que viriam a produzir posteriormente em separado trabalhos notáveis em ficção, têm significativa estreia conjunta em Duas faces (1961). Mesmo enveredando depois nas trilhas do romance, os dois não abandonam o conto. Ivan Ângelo a ele retornaria em A casa de vidro (1979) e A face horrível (1986), desvelando com fina ironia e habilidade técnica as armadilhas escondidas sob os disfarces do cotidiano.
   2. Jaime Prado Gouvêa, na sequência de intensa aprendizagem na redação do Suplemento literário do Minas Gerais, lança Areia tornando em pedra (1970), a que se seguiram outros títulos, numa gradação ascendente em qualidade e densidade, sem abandonar a agilidade, o vigor juvenil, como Dorinha, Dorê (1975) e Fichas de vitrola (1986), voltados para a revisitação crítica do passado, a sátira às convenções e o interesse pela condição humana.
    3. João Antônio, após o premiado Malagueta, perus e bacanaço (1962), enfocando a malandragem paulistana, publicou Casa de loucos (1971), Leão de chácara (1975) e Abraçado ao meu rancor (1986), histórias populares, vazadas em linguagem direta. Cultivou exclusivamente o conto, com extremado rigor e poder de síntese. A pesquisadora Regina Dalcastagnè discute o tom paternalista desse narrador: “Em seus contos ele se utiliza daquele sentimentalismo de classe média em relação a determinadas figuras do submundo urbano que não se apresentam como uma ameaça efetiva para as elites. Suas personagens são bonachonas, engraçadas, sofredoras, nunca perigosas” (DALCASTAGNÈ, 2002, p. 49).
     4. Uma mulher, Lucienne Samôr, tira o sono de editores e leitores, com seus contos góticos, algo macabros, habitados por personagens desvairados e tensos, nos relatos sombrios e nervosos de O olho insano (1975).
       5. Luiz Fernando Emediato, em Não passarás o Jordão (1977), Os lábios úmidos de Marilyn Monroe (1978), aborda questões relacionadas à repressão política, a tortura, a violência e o preconceito, numa perspectiva irônica e cética, incapaz de sufocar os arroubos juvenis.
    6. Luiz Gonzaga Vieira publica Aprendiz de feiticeiro em meados dos anos 70, surpreendendo pela proposta refinada e lúcida de adentrar nos subterrâneos da classe média, não apenas em seus aspectos socioeconômicos e políticos, mas com interesse na angústia existencial.
     7. Luiz Vilela, precocemente revelado e premiado em Tremor de terra (1967), seguido de No bar (1968) e Tarde da noite (1970), entre outros, tem papel importante na radical ruptura com técnicas tradicionais, revisão crítica de mitos e valores arraigados, refinada elaboração de material colhido no cotidiano.
    8. Manoel Lobato, mineiro de Açaraí, é conhecido pelos contos de Garrucha 44 (1961), Contos de agora, (1970), Os outros são diferentes (1971), Flecha em repouso (1977), permeados de conflitos gerados pela neurose, submissão a preconceitos e enquadramentos morais. “Aparentemente o conto é uma peça fria, impessoal, que ele leva ao microscópio, uma radiografia que não permite extrapolações. Mas se Manoel Lobato consegue anular a participação de quem escreve, não impede que ela se transmita ao leitor. É difícil não se sentir a angústia de sua pequena e rota humanidade” (PÓLVORA, 1975, p. 155).
    9. Mario Garcia de Paiva, vencedor do Concurso de contos do Paraná (1971), publica livros notáveis, em que o cenário urbano às vezes dá lugar a uma ambientação de ficção científica, como Os planelúpedes (1975), Dois cavalos num fuscazul (1976) e Os agricultores arrancam paralelepípedos (1977).
    10. Nélida Piñon, após algum hermetismo inicial, realiza uma ficção comprometida com a captação de fluxos de consciência, desde Tempo das frutas (1966), passando por A casa da paixão (1972) e Casa de armas (1973). A autora “...cumpre galhardamente, no entanto, o castigo dos que preferem por inclinação de personalidade ou atitude crítica, a análise das impressões ao relato de acontecimentos” alinhando-se, ainda no dizer de Hélio Pólvora, “no grupo de escritores nacionais e estrangeiros que empresta à literatura imaginativa as instrumentalidades da orquestração onírica” (PÓLVORA,1975, p.136-137).
     11. Roberto Drummond, mineiro de Ferros, descobre uma forma arejada de criticar a sociedade de consumo, em textos experimentais, impregnados de sátira política e social e citações do universo pop. Seu principal livro talvez seja A morte de D. J. em Paris (1975), o conto-título é admirável, ao apresentar a inquietante criação de uma Paris imaginária pelo protagonista.
     12. Sérgio Faraco motiva predominantemente seus contos em temática social, abordando os desdobramentos políticos dos anos de autoritarismo, tais como a violência e a repressão, quando não reforça a nostalgia de um passado irreversível, nas coletâneas Depois da primeira morte (1974), Noite de matar um homem (1986), A dama do Bar Nevada (1987), O chafariz dos turcos (1990), Dançar tango em Porto Alegre (1999).
       13. Sérgio Sant'Anna, após a estreia (O sobrevivente, 1969) e de viver uma temporada em Minas, daria continuidade a uma produção literária de elevada consistência criativa, publicando Notas de Manfredo Rangel (a respeito de Kramer) (1973) e O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), em que tenta captar com lucidez as aspirações e conflitos urbanos. Sobre o seu processo, afirma Hélio Pólvora: “O diálogo é o sistema nervoso do relato. Através dele, as personagens denunciam o que são, o que pensam e por que chegaram à sua dolorosa condição atual. Cenas ágeis, convincentes, como se o ficcionista tivesse o poder de, parando o tempo, eternizar imagens, falas e conflitos que já trazem em si mesmos o diagnóstico” (PÓLVORA, 1975, p. 151).
        14. Silviano Santiago, após as duas novelas enfeixadas em Duas faces (1961), em parceria com Ivan Ângelo, daria a lume os contos experimentais e de estrutura sofisticada de O Banquete (1970), receptivos a uma rebeldia disciplinada e inovações pós-modernas. Renomado teórico da literatura e romancista, o autor volta à narrativa curta em 1997, com Keith Jarret no blue note.
      15. Wander Piroli, egresso do jornalismo policial, aborda, com uma objetividade implacável, a exploração do homem pelo homem, a marginalização social, sem abandonar uma forma sensível e impactante, em obras singulares, como A mãe e o filho da mãe (1966), A máquina de fazer amor (1980).

Referências bibliográficas:
BASTOS, Alcmeno. Ficção: histórias para o prazer da leitura (uma revista literária dos anos 70). Estudos de literatura brasileira contemporânea. n. 23, Brasília, jan./jul.2004, p.136-150.
COUTINHO, Afrânio; SOUZA, J. Galante. Enciclopédia de literatura brasileira. I e II vol. São Paulo: Global Ed./ Fund. Biblioteca Nacional/ Academia Brasileira de Letras, 2001.
DALCASTAGNÉ, Regina. Uma voz ao sol: representação e legitimidade na narrativa brasileira contemporânea. Estudos de literatura brasileira contemporânea. n. 20, Brasília, 2002, p. 33-77.
LUCAS, Fábio. A ficção giratória de Lygia Fagundes Telles. Cult. 23, p.12-15, São Paulo, junho 1999.
MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Livros técnicos e científicos editora, 1978.
PÓLVORA, Hélio. Graciliano, Machado, Drummond & outros. Rio de Janeiro: Francisco Alves Ed., 1975.
Status, 105-A, São Paulo, abr. 1983.
VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo III



Vinte contistas dos anos 70

     Vinte contistas dos anos 70. Surgiram na época brincadeiras (algumas ásperas) no tocante ao boom dos contistas mineiros. Quase quarenta anos depois, é possível uma avaliação mais serena. Escritores paulistas, gaúchos e paranaenses (em escala menor) também surgiram com força naquele período. Ricardo Ramos teria sido o criador da lenda, envolvendo a saudável praga cultural que se cristalizou: a proliferação de contistas mineiros; dizia para não se chutar lata no meio da rua porque ela podia estar cheia de contistas mineiros. Alguma imprensa paulista, a cada autor de Minas lançado, insistia no mote: mais um autor mineiro. A ideia, subalterna e subliminar, era que, enquanto o carioca curtia a praia e o paulista ganhava dinheiro, o mineiro escrevia conto como se escrevesse soneto. Se a intenção era minimizar a importância do autor mineiro, o tiro saiu pela culatra. A própria revista Status, receptiva à boa ficção, chegou a editar um número exclusivo de contos mineiros eróticos (n. 105-A, abr. 1983), salientando a sua qualidade, ao registrar que os autores escreviam “admiravelmente bem” suas histórias.
     A rotulação da década de 70 como época de “vazio cultural” (Zuenir Ventura) carece de uma compreensão modalizada e de uma mais abrangente contextualização, sob o risco de serem descreditados a poesia marginal (Cacaso, Leminski), a consolidação do conto urbano e o Neoconcretismo nas artes. A falta de incentivo, a circulação restrita por conta de tiragens quase artesanais feitas por editoras de pequeno porte (o caso da extinta Interlivros, de Belo Horizonte), a repressão política (“os negros verdes anos”, segundo Cacaso) são aspectos a serem considerados na avaliação da produção cultural da época.
     Alguns estreiam como contistas, revelando-se depois brilhantes romancistas ou poetas. Outros escrevem exclusivamente contos. Não enveredam por outros gêneros. Podem até publicar romance, poesia ou ensaio, mas deixam explícita sua opção pela história curta. Esse aspecto reforça uma fidelidade ao gênero, algumas vezes reveladora de exclusividade.
     Os critérios da seleção de nomes, embora subjetivos, tentam erigir algumas balizas e pontos de apoio, privilegiando a qualidade, a originalidade e os marcos cronológicos. Determinados escritores surgem excessivamente marcados pelo epigonismo, dada a presença e diluição em seus textos de processos e temas antes tratados por autores seus contemporâneos. O limite temporal recortado (anos 70) abarca, em demarcação um tanto flexível, a produção lançada entre 1965 a 1979. Apesar de fluido, o recorte temporal origina-se um pouco antes. É preciso atentar para o advérbio de tempo. Nesse recorte, de tendência historiográfica, ligado à história da literatura, não são contemplados nomes surgidos depois do marco final.       Como João Gilberto Noll, cuja estreia ocorre nos anos 80 (O cego e a bailarina, publicado em 1980). (A entrada dos autores segue a ordem alfabética do primeiro nome).
     Caio Fernando Abreu é hoje um autor de merecida e considerável fortuna crítica. Resultante de sua adesão incondicional ao universo gay? Obviamente que não. A visão niilista misturada à ideologia das minorias, num contexto histórico e filosófico propício ao reconhecimento da diferença, em todas as suas manifestações, o ingrediente irônico, sabiamente dosado, o temperamento sensível ao malogro das utopias pós anos 60 e (por que não?), a tragédia pessoal contribuem, ao fim e ao cabo, para o crescente interesse em relação à sua obra. Seus principais livros compreendem basicamente contos: O ovo apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos mofados (1983), Os dragões não conhecem o paraíso (1988).
     Domingos Pellegrini é um contista admirável pela a força emotiva, o ritmo ágil, a linguagem coloquial, carregada de vivacidade, sensorialismo e sabor pitoresco, além do insuperável domínio no tratamento de dramas familiares e juvenis. Prêmio Jabuti em 1977, com O homem vermelho, ficou estigmatizado, de forma positiva, pela expressão do arroubo e iniciação sexuais de jovens, tema recorrente em outros livros (Paixões,1884 e Os meninos crescem, de 1986, em especial). Os dois livros merecem registro também pela edição esmerada e cuidada concepção gráfica. Em Os meninos crescem, quatro contos atestam alto nível de densidade técnica e espessura humana: “A noite em que encontrei meu pai”, “O aprendiz”, “A última janta”, “Subterrâneos”. São grandes realizações ficcionais, em qualquer língua do mundo.
     Duílio Gomes, hábil criador de atmosferas, quase sempre sufocantes, surpreende a crítica pela ousadia temática, linguagem direta e tom jovial, descontraído e irreverente de suas histórias, breves mas incisivas, presentes em O nascimento dos leões (1975), Verde suicida (1978), Janeiro digestivo (1983).
     Elias José explora o cotidiano, com uma linguagem abusadamente lírica, acoplada a uma temática urbana, com pitadas de realismo mágico, desde as incursões no chamado miniconto de A mal-amada (1970) e O tempo, Camila (1971) aos livros posteriores, Inquieta viagem ao fundo do poço (prêmio Jabuti em 1974), Um pássaro em pânico (1982), O grito dos torturados (1986). Hélio Pólvora embirrou com o rótulo de miniconto: “...o problema de encurtar ou alongar o conto não deveria preocupar Elias José. Ele é um desses ficcionistas que precisam de maior espaço gráfico. Sua forma de expressão, definida nas melhores peças de A mal-amada, impõe a montagem paciente, a superposição de detalhes emotivos e de constatações existenciais. (...) Neste sentido, seria conveniente que o contista enfraquecesse a fiscalização, ausentando-se o mais possível do texto, tirando do texto a impressão de coisa composta” (PÓLVORA, 1975, p. 154).
     Ignácio Loyola Brandão, a princípio tendo o jornalismo como atividade paralela (até 1982), conquistou um público fiel com suas histórias verticais e inquietantes, escritas em linguagem elegante, de funda e densa ressonância, tal como em Depois do sol (1965), Pega ele, silêncio (1976), Cabeça de segunda-feira (1983).

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo II



(O título estampado na imagem é uma tradução portuguesa de Godofredo Rangel).

O conto brasileiro contemporâneo II

Ou:

A tradição ficcional em Minas Gerais

Para além desses nomes, outro fator decisivo para a efetiva aclimatação do conto em Minas seria a rica tradição de bons contistas nascidos no estado. A lista, extensa, abrange obras publicadas desde o início do século XX até os anos 70; serve para aquilatar a riqueza da tradição ficcional em Minas. Entre eles, Afonso Arinos (Pelo sertão,1898); Alberto Deodato (Senzala, 1919, Canaviais, 1922); Rodrigo Melo Franco de Andrade (Velórios, 1938); João Alphonsus escreve os contos de Galinha cega, (1931), Pesca da baleia, (1941); Godofredo Rangel, com os relatos de Andorinhas (1921), Os humildes, (1944); Amadeu Queirós, com os contos de Os casos de Carimbamba (1939); João Dornas-Filho publica Bagana apagada (1940); Oswaldo Alves (Uma luz na enseada, 1944); Aníbal Machado, com os livros Vida feliz, (1944) e A morte da porta-estandarte e outras histórias (1965); Autran Dourado, antes de publicar romances notáveis, deu a lume os contos de Três histórias na praia, (1956), Nove histórias em grupo de três, (1957); Euclides Marques de Andrade (O dono do mundo, 1948); Carlos Drummond de Andrade, além de poeta consagrado, deu a lume Contos de aprendiz, (1951); Jurandir Ferreira com os contos de A campainha e o camondongo (1955); Otto Lara Resende, com os relatos de O lado humano (1952), Boca do inferno (1956); José Afrânio Moreira Duarte, com os contos de O menino do parque, (1966) e A muralha de vidro, (1971); Ildeu Brandão (Um míope no zoo, 1968); João Etienne Filho (Os tristes,1971); Bárbara de Araújo (O bezerro de ouro, 1970).
A consolidação, a importância e os reflexos da obra desses autores eram um aval poderoso para que, na década de 70, o país tomasse conhecimento de grande número de contistas mineiros, alguns excepcionais. Isto posto, chegamos aos autores revelados a partir dos anos 70 ou um pouco antes. À exceção do paranaense Domingos Pellegrini, dos gaúchos Caio Fernando Abreu e Sérgio Faraco, dos cariocas Nélida Piñon e Sérgio Santana, dos paulistas Ignácio Loyola Brandão e João Antônio, todos os outros autores referidos a seguir são mineiros. Sem nenhuma concessão, outros dez nomes de autores brasileiros do mesmo quilate poderiam ser citados, surgidos à altura ou pouco depois. Para ficar em número redondo, estes são, a meu ver, vinte nomes relevantes da ficção brasileira nos anos 70. Cf. “O conto brasileiro contemporâneo III”.

domingo, 23 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo I

(Inicio hoje a divulgação de um ensaio, uma visão panorâmica da ficção brasileira produzida a partir dos anos 70. Dada a sua extensão, optei por dividi-lo em quatro postagens. As referências bibliográficas virão ao final da quarta e última parte).

Quais os contistas relevantes surgidos na década de 70 no Brasil?


Um demorado tour d'horizon à produção ficcional das últimas três décadas daria perspectivas favoráveis aos nomes surgidos em Minas. A evolução do conto mineiro confunde-se com a consolidação do conto brasileiro contemporâneo. Quais os contistas surgidos na década de 70 no Brasil? Antes de responder a esta pergunta, cumpre referir seis nomes tutelares da literatura brasileira, considerados mestres do conto, três deles nascidos em Minas, revelados antes dos anos 70.
O nome maior do conto moderno é Clarice Lispector, cidadã do mundo, nascida na Rússia, brasileira desde os dois meses de idade. Seus livros Laços de família (1960) e Legião estrangeira (1964) são responsáveis por verdadeira inovação nos modos ficcionais, revelando sondagem psicológica, densidade temática, atração pelo enigma, sutileza e intensidade de enunciação.
Outro nome fundamental é Murilo Rubião, cuja estreia aconteceu com O ex-mágico (1947), inaugurando a vertente mágica em nossas letras, retomada depois em A estrela vermelha (1953), Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias (1974), A casa do girassol vermelho (1978).
Guimarães Rosa, com a admirável estreia em Sagarana (1946), surge como promessa de uma renovação estética de vulto, como se daria uma década depois, quando em 1956 Grande sertão: veredas e Corpo de baile vieram a lume; retornaria ao conto em Primeiras estórias (1962) e Tutaméia (terceiras estórias) (1967).
Lígia Fagundes Teles apresenta uma narrativa poética, receptiva à oralidade, ao mergulho introspectivo e à dimensão fantástica, em registros soberbos de elaboração formal, como em Jardim selvagem (1965), Antes do baile verde (1972), Seminário dos ratos (1977). Para Fábio Lucas, “Enfim, tudo transcorre na prosa mágica de Lygia como se os fantasmas aparecessem para corrigir a realidade que não conduz ao prazer” (LUCAS, 1999, p.15).
Rubem Fonseca desperta de imediato o interesse pela renovação a que submete a linguagem ficcional, tornando-a ágil e contundente para abordar a temática urbana, dando destaque à violência, em livros fundamentais para a evolução da ficção brasileira contemporânea, Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia McCartney (1970), Feliz ano novo (1975).
O paranaense Dalton Trevisan impõe-se de forma inconteste pela cuidada elaboração de suas histórias curtas, capacidade de síntese, equilíbrio entre o coloquial e o registro literário, tendência ao relato impiedoso e crítico, em especial pelos livros Cemitério de elefantes, (1964) e O vampiro de Curitiba, (1965).

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Tchan! tchan! tchan! tchan!


Devo uma explicação. O Edgard seguidor do blog não é um fantasma, clone, nem um assessor nomeado por ato secreto. Trata-se de uma derrapada técnica, cometida por inépcia minha mesmo. Como não descobri jeito de eliminar, fica lá. E sejam todos bem vindos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A correspondência de Fradique Mendes



A correspondência de Fradique Mendes


Na multifacetada obra de Eça de Queirós, o título acima ocupa um lugar de destaque, apesar de ser um dos menos favorecidos pela fortuna crítica. Composto em forma de uma longa narrativa, a que se adicionam inúmeras cartas atribuídas a Fradique Mendes, o romance constitui um produto interessante, em termos de estrutura e construção, além de questionar aspectos fundamentais ligados à questão autoral. Entre a biografia e a ficção, sua estrutura acentua o entrelugar do narrador, indeciso entre a irrealidade dos fatos inventados e a possibilidade de comprovação histórica de muitos outros, alusivos à biografia do próprio Eça de Queirós ou à de Antero de Quental.
A personagem Fradique tem sua primeira aparição numa divertida invenção dos intelectuais integrantes das reuniões do Cenáculo, entre 1865/1880, num horizonte estético posterior à moldura naturalista, com um perfil tendente à modernidade, descrito de forma extremamente hábil, numa narrativa dialógica, que coloca sob suspeição a postura dogmática e autoritária do Realismo.
A correspondência de Fradique Mendes, mais do que constatar o abismo entre enunciado e enunciação, discute a questão da autoria literária. Carlos Reis aventa a hipótese da possibilidade de ser um heterônimo de Eça de Queirós. (A esse respeito, externei minha opinião em ensaio publicado no volume Romance histórico: recorrências e transformações, organizado por BOECHAT et alii. Belo Horizonte, FALE/UFMG, 2000.) Em mais de um momento, afirma o narrador que Fradique não tinha pretensões literárias e não tencionava ser um autor.

“Eu por mim, dum melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique, concluo que ele não deixou um livro de Psicologia, nem uma Epopéia arqueológica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e vã ostentação de sabor pitoresco e fácil), nem Memórias – inexplicáveis num homem todo de ideia e de abstração, que escondia a sua vida com tão altivo recato. E afirmo afoitamente que nesse cofre de ferro, perdido num velho solar russo, não existe uma obra – porque Fradique nunca foi verdadeiramente um autor”. (QUEIRÓS, s/d, p. 102-103)

A citação é assaz esclarecedora do perfil cético e do caráter vago do protagonista. Apresentado como amigo e admirador de Theophile Gautier, Fradique, através do narrador, surge fascinado pela possibilidade de se deixar envolver pela “ação inefável do absolutamente belo”, adepto da crença num esteticismo radical.
A narrativa, até certo ponto fluida, no que diz respeito ao contexto histórico, não frustra a intenção de configurar uma determinada época. O tempo é uma categoria rígida no romance. Embora as cartas não sejam datadas com exatidão, o narrador separa com ênfase o ano de 1867, quando teria conhecido Fradique, bem como o ano de 1880, quando teria ocorrido sua intimidade com o protagonista. Apesar de reiterar, em várias passagens, que a amizade dos dois não ultrapassou “as funções da inteligência”, o narrador não consegue camuflar a forte atração que sente pelo amigo, entre pitadas de ironia e sutilezas (homo)eróticas. Embora seja um arremedo de heterônimo, uma vez que seu estilo não se afasta do estilo de Eça de Queirós, Fradique cumpre à perfeição seu papel na cena literária, ao possibilitar a escrita de um grande romance, que de certa forma inaugura alguns recursos (a mescla de realidade e ficção, entre outros) caros nos dias que correm, assinalando de forma soberba o providencial encontro de seu autor com a Modernidade.
QUEIRÓS, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. Porto: Lello & Irmão, s/d.

sábado, 15 de agosto de 2009

Divulgando sites de consulta





      No primeiro site, a conhecida revista de literatura portuguesa Colóquio-letras, que na janela Actualidade, apresenta dois textos críticos que escrevi no ano passado: um sobre o romance Cidade proibida, de Eduardo Pitta; outro sobre o romance A máquina do arcanjo, de Frederico Lourenço.


O segundo é um site amplo de literatura brasileira.






quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Poetas brasileiros do século XX


(Imagem: "Figura", de Ismael Nery)

Ocorre com frequência. Um jovem escritor, candidato às musas, pede nomes de poetas que merecem ser lidos. Sem competição. Sem ponto final, para justificar algum natural olvido. Pronta a lista, alguns nomes, suscetíveis, acordaram-me à noite, para incluí-los. Muitos nomes alistados não constituem novidade para a maioria, mas talvez ele não os conheça. Os nomes anteriores ao século XX todo poeta deve descobrir sozinho, se não descobriu ainda.

Clássicos modernos:

Abgar Renault, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Cassiano Ricardo, Cecília Meireles, Guilherme de Almeida, Henriqueta Lisboa, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Menotti del Pichia, Murilo Mendes, Oswald de Andrade, Raul Bopp, Ronald de Carvalho, Vinícius de Morais,

Décadas 40 a 60:

Affonso Ávila, Affonso Romano de Sant'Anna, Armando Freitas Filho, Augusto de Campos, Bueno de Rivera, Carlos Nejar, Dantas Mota, Décio Pignatari, Emílio Moura, Ferreira Gullar, Geir Campos, Haroldo de Campos, Henry Corrêa de Araújo, Hilda Hilst, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Joanyr de Oliveira, João Cabral de Melo Neto, José Paulo Paes, Laís Corrêa de Araújo, Ledo Ivo, Lélia Coelho Frota, Leonardo Fróes, Mário Faustino, Mário Quintana, Mauro Mota, Moacyr Félix, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Roberto Piva, Thiago de Melo, Walmir Ayala,

Décadas de 70/80:

Adão Ventura, Adélia Prado, Alexei Bueno, Ana Cristina César, Antonio Barreto, Antonio Carlos Sechin, Antônio Carlos Brito, Armindo Trevisan, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, Chacal, Celso Japiassu, Cláudio Willer, Denise Emmer, Edimílson Almeida Pereira, Fábio Fiorese, Francisco Alvim, Geraldo Reis, Iacyr Anderson Freitas, João Paulo Gonçalves, Libério Neves, Lindolfo Bell, Magda Frediani, Manoel de Barros, Marcelo Dolabela, Márcio Almeida, Marcus Acyoli, Olga Savary, Osvaldo André de Mello, Pascoal Mota, Paulinho Assunção, Paulo Henriques Britto, Paulo Leminski, Pedro Lyra, Régis Bonvicino, Ronald Claver, Sebastião Nunes, Sebastião Uchoa Leite, Sérgio Campos, Sônia Queirós, Waly Salomão, Yeda Prates Bernis,

Década de 90:

Alexandre Rodrigues da Costa, Anelito de Oliveira, Anízio Vianna, Antônio Cícero, Augusto Massi, Bruno Tolentino, Donizete Galvão, Eucanaã Ferraz, Eustáquio Gorgone Oliveira, Evaldo Balbino, Fabrício Carpinejar, Fabrício Marques, Jovino Machado, Leopoldo Comiti, Maria Esther Maciel, Ricardo Aleixo, Vera Casanova, Wilmar Silva,

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sorvete sabor saudade



Elias José (1936/2008)


Apesar de ser início de agosto, faz calor, um sorvete à tarde fica bem. Lembra ainda uma novela de Elias José de que gosto muito, Sorvete sabor saudade.

Dia 4 de agosto completa um ano da morte de Elias José. Morreu de pneumonia, em temporada na praia, de férias com a família. Elias José foi um escritor amigo de outros escritores, sempre disposto a orientar e sugerir caminhos. Vivia em Quaxupé. Como escritor de livros infanto-juvenis, seu nome ultrapassa as fronteiras nacionais, era respeitado e reconhecido, os títulos contam-se em mais de quatro dezenas. Alguns sites de pesquisa falam em mais de cem livros. Publicou o primeiro livro de minicontos, (O tempo, Camila, em 1971), gênero em que era mestre com direito a ser reconhecido como um de seus fundadores. Houve uma época nos anos 80 em que muitos cultivaram o miniconto. Em fins dos anos 80 (1989), visitei-o no sul de Minas, lá morava uma sobrinha. Recebeu-me com alegria em sua casa, deu-me dois livros autografados: O grito dos torturados, editado em 1986 pela Nova Fronteira, do Rio; Sorvete sabor saudade, (FTD,1989).

Autor de vasta obra, distribuída em vários gêneros (ficção, poesia, juvenil e infantil) merece admiração e registro, em especial por três títulos de ficção: Um pássaro em pânico, (livro de contos de 1977), Sorvete sabor saudade (deliciosa estória, panorama delicado de situações familiares) e Inquieta viagem ao fundo do poço (Prêmio Jabuti, como melhor livro de contos de 1974). Não lhe conheço toda a obra, mas as três citadas bastam para consagrar um autor. Sorvete sabor saudade é uma interessante novela, cujo entrecho vagamente recordo: pai e filha vão ao cemitério, em dia de finados, onde o pai reencontra antiga namorada, há muito tempo vivendo em São Paulo. A circunstância possibilita a descoberta pela adolescente do sentimento de ciúme, ao perceber no pai algum desequilíbrio e descontrole.

“Terminada a sua parte nas despedidas, Ana virou espectadora. Não tirava os olhos dos dois, quando foi a vez de Gilberto se despedir. E ficou vermelha e enciumada, vendo que eles se abraçavam fortemente e davam beijinhos de um jeito estranho, mais afetivo, mas demorado talvez. O que havia de diferente ela não sabia, não entendia. Poderia até só existir a diferença em sua imaginação. Sabia só que não eram beijinhos formais de amigos que se despedem, mas também não ousaria classificá-los de beijos de namorados. E viu, tinha certeza de que viu, uma lágrima sair dos olhos de Eliana e cair nas mangas da camisa do pai”. (p. 46-47)


Nomeia-me seu amigo nas duas dedicatórias (“Ao amigo Edgard, com a alegria de sua visita a Guaxupé e à minha casa...”). Guardo as melhores recordações daquela visita, mostrou-me um corredor cheio de estantes, várias capas de livros, fotos de eventos literários e parentes espalhadas nas paredes, pareceu-me ser um homem feliz, vivendo numa família adorável. Um escritor reconhecido em âmbito nacional e internacional, com apreciações positivas de Otávio de Faria e Antônio Carlos Vilaça, entre outros.

domingo, 2 de agosto de 2009

Senhora do Destino


(Imagem extraída de: revistaparadoxo.com)

Não sou chegado a novelas de televisão. Acompanho, no entanto, a novela Senhora do destino, da Globo, à tarde, quando posso, alertado por minha mulher. Nunca imaginei chegar a tal mordomia! Sem dúvida, a melhor produção do gênero dos últimos cinco anos. Agradam-me o texto ágil, engajado e poético de Agnaldo Silva e o desempenho dos atores (em especial Renata Sorrah, Suzana Vieira, Caroline Dieckmann, Débora Dolabela, Leandra Leal, José Wilker e Leonardo Viera). As duas primeiras são excelentes, fazem atuações brilhantes. Papel apagado, no caso, o do meu ex-colega de faculdade de Letras, José Mayer. Dois motivos caros, subjetivos e familiares, o nome de duas personagens: a do Carmo, a senhora do destino que lembra o nome de minha mãe; Edgard, o dono do restaurante Monsieur Vatel. Alguns recursos beiram ao extremo de sofisticação: a consagração da protagonista (o desfile da escola de samba) coincide com a invasão de sua casa pela vilã; a derrocada do leilão do quadro de Cézanne sepulta o sonho do motorista Sebastião, que vive imerso em recordação doentia de antiga paixão. Muitos outros elementos concorrem para o alto patamar de qualidade do texto: a temática nordestina (a família fugindo da miséria, ampliada pelo sequestro do bebê); o vasto painel da vida urbana carioca, o conflito entre classe alta decadente e classe média insurgente; as tensões geradas pela união gay (tanto no plano feminino, como no masculino, neste tendendo ao estereótipo); o papel proeminente dos bicheiros na sociedade carioca, o aspecto folhetinesco envolvendo bordel e ascensão social; o componente hilário dos chefões de gangue; o caráter inescrupuloso e mórbido da vilã (além de má, promíscua); o diversificado cenário, que vai do ambiente refinado do Copacabana Palace ao apartamento sombrio de Nazaré Tedesco, com direito a cenas de suspense dignas de Hitchcock, envolvendo a escada serial killer. Agnaldo Silva é sem dúvida o mais talentoso autor de novelas. Uma produção que notabiliza a televisão brasileira. Caso raro em que vale a pena ver de novo.

sábado, 1 de agosto de 2009

Um livro por mês



Um livro por mês:


Os poetas hoje publicam livros com fotos, releases, são modelos, desenham, são programadores visuais, performers. Os poetas de hoje dançam na floresta tropical, entre sucuris e cotias. Conheci pessoalmente Wilmar Silva há dez meses. A leitura de seus livros foi uma descoberta marcante: um verdadeiro poeta, uma voz original, uma dicção própria, uma temática singular. Trocamos livros, levei lucro, quatro por doze. Admiro-lhe o entusiasmo, o gás aceso, a concepção dinâmica de editar poesia. Excessivamente fotografado em seus livros, uma presença forte, usa um brinco, aparenta viver uma encenação acabada de ser escrita, uma fantasia poética. Foi manchete de páginas inteiras, há dois anos, nos melhores jornais portugueses, Público, de Lisboa, e o Primeiro de janeiro do Porto. Promovia seu projeto Portuguesia, a publicação em três exemplares de poesia produzida nos países de língua portuguesa. Nos livros mistura fotografia e texto, numa visada híbrida e provocativa.


Leio Estilhaços no lago de púrpura (2007). Os poemas nascem de uma vertiginosa explosão lírica, articulando a experiência a uma idéia libertária da invenção, em que a subjetividade explode em cacos, as imagens sucedem-se numa cascata de ecos: “sou este cavalo com escamas nas crinas/ e cascalho para cavalgar um corpo distante”, (...) “eu que herdei cercas e preciso de arados”. Numa lírica áspera, voltada para a decifração de fluxos inquietos e desejos à deriva, em que a busca de compreensão identitária revela-se improvável, centelhas de lucidez insistem em nomear a visceral contiguidade à natureza. O envio a animais (gambás, grilos, lobo, peixes, pássaros), transformados em projeções da identidade poética, procura desfocar a pretensa intelectualidade da poesia ocidental, aproximando-a do natural, do instintivo. Ou de um estágio anterior à dimensão lógica.


A partir de Arranjos de pássaros e flores (2002), observa-se a ruptura de uma lírica discursiva, agora direcionada para a integração de um sujeito num território marcado por idiossincrasias regionais, incorporando a desagregação do discurso e uma dicção no limite do grito e do caos. A experimentação ousada presente em Cachaprego (2002), portanto anterior a Estilhaço em lago de púrpura, já anunciava uma reviravolta em sua concepção da realidade e o uso de recursos inusitados, em algum sentido, revolucionários, tendo em vista a postura nada convencional diante do código linguístico. A desarticulação da sintaxe tradicional, aliada à decomposição gráfica das palavras, elabora a justaposição aparentemente descontrolada de fragmentos líricos: “eparacadacacto uma caatinga aocorpo de animal catinguento com aromíscar que zarpaarpa e um oboé de trama e pranto agelosurdo encandesce meus ouvidso entre aros e frexas aradas amil ssabores de caosfé...” (fragmento 19, Cachaprego).

A poesia mais recente de Wilmar Silva, após o equilíbrio por certo observado nos primeiros livros, pela radicalização a que submete a linguagem, no intuito de inovar a expressão discursiva, mostra-se permeável a duas prováveis articulações: o aspecto caótico das leis da natureza, sob o choque do aquecimento global; a extrema complexidade de redes de software. As leis naturais, antes inflexíveis e imutáveis, nos últimos trinta anos demandam uma nova codificação, com a avalanche de catástrofes e devastações que se vão alastrando ultimamente nos quatro cantos da Terra. As variações climáticas sempre existiram. Nas últimas décadas, contudo, os impactos ambientais exarcebaram os efeitos negativos em escala universal. Baralhar a leitura, torná-la complexa, um de seus caminhos. A expressão gráfica dos poemas mostra-se aparentemente caótica, sob o efeito de uma devastação dos sinais e normas da grafia convencional, simultaneamente apontando tanto para a desconstrução do texto acabado e definitivo, quanto para as múltiplas direções para as quais a leitura possa enveredar: “(...) e quando me lampejo me faço avelivre e agora nesse espaçohabitado de jias sou um areal em chamas que torridoe e túmido apenas oferece as chasgas de um são francisco amarrado em seus troncos nos ermos do campo grande...” (fragmento 11 de Cachaprego).

Tal processo estrutural (e a ambiguidade, no caso, vem a calhar, quando se pensa estrutura como algo estático e processo como progressão e dinamismo) se por um lado evidencia uma inconformada asfixia do eu em relação à realidade circundante, de outro possibilita, sob a moldura de uma suposta pose country ou ingênua, a percepção melancólica da ruína da paisagem: “...(...) essa vertigemaragem sem meu destino eu sem fado o que faço agora nesse cerrado que perde as árvores e se acasala ao mundo dservos e cervos que passam jutas nops lábios apenas para coloriris as dores amargas de todsos os sóis que amedrontam o raiar das alvoradas...” (fragmento 10, Cachaprego). Este aspecto caótico de apreensão da realidade, sob a chancela de uma velocidade verbal quase eletrônica e o disfarce de uma suposta incompetência linguística, tem ainda o dom de reverberar uma subjetividade inquieta e o vertiginoso fluxo de sensações.

A arejada e tensa respiração dos versos, tributária a um só tempo das calcinadas paragens do cerrado e do fôlego de espasmo que os habita, combinada à linguagem emaranhada e desconexa, joga com as surpresas da ambiguidade. O aparente descuido em apontar um sentido único, o uso do enunciado que se nega a si próprio, seja pela troca ou alterações de letra, ao mesmo tempo em que tangenciam a fluidez entre a verdade e a mentira, mostram a hesitação entre o relevante e o irrelevante, segundo os parâmetros pós-modernos. Afastam-se da pretensão autoritária de compreender a origem e a metafísica, da especulação triste sobre essência e atributos, aproximam-se da radiante, enigmática e serena eclosão do acontecimento, como numa página de Deleuze. Alguma insistência na percepção excessiva, a desmesura de contornos e limites, por sua vez, acompanham o jorro verbal alucinado, a que não são estranhas certas variações de cariz barroco, em decorrência de arraigada tradição desse estilo na cultura mineira. As fotografias de Sandro Vieira acentuam a o lado visceralmente telúrico da concepção poética, o diálogo corpo/natureza, paralelo ao diálogo discursivo entre corpo e linguagem.

SILVA, Wilmar. Cachaprego. Imagens de Sandro Vieira. Belo Horizonte: Anome Livros, 2004.
PALMEIRA, Joaquim. Estilhaços no lago de púrpura. 2. ed. Belo Horizonte: Anome Livros, 2007.