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sábado, 25 de julho de 2009

Faremos um bebê de cobalto


(A imagem reproduz quadro do pintor português Antonio Palolo)




Os quarenta anos da chegada do homem na lua me levam de novo aos bancos da graduação, aos encontros de jovens decididos e sonhadores que éramos, às discussões sobre uma intervenção que aconteceu em Belo Horizonte em fins dos anos sessenta, longos bate-papos em mesa de bar. Ficou registrado como um jornal, de nome Talupa. No seu primeiro número, Magda Frediani publicou um belo poema, de ritmo entrecortado, fragmentos líricos abusados, feito sob medida para a recitação, de preferência num cenário psicodélico, lunar.



Faremos um bebê de cobalto



atenção:
a contagem regressiva começa - 9 ...8...7...
(segura minhas mãos) ...6...5...4...(és o
centro do meu corpo)...3 ...2...1...(parte
de ti a essência)...ZERO!
(a cápsula impalpável aguarda o momento exato)
faremos um bebê de cobalto
concentrados e sérios
(os minutos são preciosos)
apagaremos os cigarros
e outras matérias inflamáveis
o bebê de cobalto
pressente seu instante de possuir-nos
ele será o número nove milhões, novecentos e
noventa e nove mil, novecentos e nove...
- terá brilhantes unhas de vidro
olhos azuis brilhantes
metálicos brilhantes
o seu choro correrá sobre nossas veias a
1.000.000 km horários
desfazendo as impossibilidades
as ausências
as distâncias
ele nos espreitará
matéria alada
no tempo/espaço
pronto acabado exato
nosso bebê de cobalto
perfeito
cronométrico
sobreviverá ao nosso ato de descrê-lo
sobreviverá à rota que traçamos para destruí-lo
sobreviverá sem sangue
- de cobalto-
(Magda Frediani. Este poema está reproduzido em Talupa-lixeratura 68/98: trinta anos. Org. por Léa Nilce Mesquita, Belo Horizonte: Formato, 1998)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Pai coruja


Esta foto é de 2000. Os meninos cresceram. Hoje ajudam a ativar o blog. Esta é uma maneira camuflada de dizer que envelheci um pouco. (A foto é de Leila Vasconcelos).

Outono atordoado, apesar do inverno...


O recesso de julho quase no fim. Algumas novidades: Nonato Gurgel inaugurou blogue de literatura, publicou inclusive a crítica que escreveu ao meu Outono atordoado. Tem uma adesão às teorias de Deleuze e Foucault, a ideia de arquivo como forma (o título é precisamente arquivo de formas). Pediu a imagem da capa do livro, o que lhe providenciei. Já está lá, no meio do artigo, de título interessante “Entre a antena e a raiz”, o mais interessante até agora sobre a minha novela, esgotadíssima (prêmio Xerox /Livro Aberto 2001). Ele explora várias relações, Belo Horizonte/Lisboa, relação amorosa homo/heterossexual, metrópole/colônia, tudo com muita elegância e sem dogmatismo.

Motivado pela leitura de textos de Nonato Gurgel, apaixonado por Leminski e a poesia marginal dos anos 70, li por alto a fala (aquilo nem palestra, nem conferência seria, passa longe léguas léguas desses formatos) de Paulo Leminski inclusa no livro, considerado cult por muitos, Os sentidos da paixão. A impressão geral é de algo descosido, sem suporte teórico rígido, delírios ou devaneios de um poeta de vanguarda. O que mais me incomoda é o incontido ódio a Bilac. Bilac faleceu em 1915, por aí. Isso (a ojeriza desbragada ao soneto e a Bilac) em fins dos século XX é sintomático, em poeta tido e havido como quintessência da vanguarda. Não deixa de dar uma ideia de uma certa vanguarda, mais voltada para a a destruição de mitos do passado que outra coisa, fechadas em si mesmas, num agônico estado agonizante, entregues ao desespero. Muitas avaliações equivocadas nos últimos trinta anos de crítica literária brasileira.

Chute inicial



Acabei de ler, finalmente, o romance Dona sinhá e o filho padre, de Gilberto Freire. Finalmente, porque estava empacado, sem motivação para prosseguir. O autor intromete-se, com digressões eruditas sobre a formação do brasileiro, e do pernambucano, em especial. O enredo é simples, o narrador mostra-se interessado em em conhecer a história de José Maria, um seminarista beato, falecido de fraqueza (febre tifóide?) logo após ser ordenado. Devoto de Nossa Senhora e de São Luiz Gonzaga, o garoto é criado com excesso de mimo pela mãe, a Sinhá. Cresce com características femininas, parecia uma mocinha, sem revelar interesse pelas tarefas e ocupações masculinas. No seminário, os garotos o chamam de sinhazinha, é discriminado por sua configuração nada viril. Um colega de internato, Paulo, o defende dos outros, insinuando-se como amigo e defensor. Quando se espera o desenvolvimento de uma relação homoerótica, nada acontece, a não ser um beijo na boca, dado em Sinhazinha por esse amigo, Paulo Tavares, o qual transfere-se para a França, onde completa os estudos de Medicina. Ao retornar da Europa, o antigo amigo já está morto; Paulo declara-se à viúva, propondo-lhe casamento, como forma de permanecer no Brasil. Em vão. O narrador intercala inúmeras digressões a respeito do caráter do brasileiro, da sexualidade masculina, dos costumes recifenses, configurando um extenso painel histórico, social e antropológico. Há um interesse em criar uma novela moderna, sem os traços naturalistas, mas o narrador acaba enganado em seu projeto.

FREIRE, Gilberto. Dona sinhá e o filho padre. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.