Total de visualizações de página

domingo, 20 de dezembro de 2009

Petrônio Bax no Museu da Inconfidência


200 Faces de Jesus de Nazaré - este é o título da exposição do pintor Petrônio Bax (1927-2008), no Museu da Inconfidência, Ouro Preto, de 12 de dezembro de 2009 a 07 de fevereiro de 2010. A visitação acontece de terça a domingo, de 12 h às 18h. Um bom motivo para revisitar Ouro Preto.


Aluno e (seguidor) de Guignard, em Belo Horizonte, entre 1946 a 1951, Bax produziu extensa obra, em desenho e pintura, marcada por motivos religiosos e traços surrealistas. Um dos motivos recorrentes é o mundo submerso, representando santos e temas bíblicos, cercados de peixes, algas e cavalos marinhos. A riqueza de cores, a pincelada competente, a densa simbologia mística, a intersecção entre o real e o fantástico são elementos que assinalam fortemente a sua pintura.


Quando cursava graduação em Letras na UFMG, participei de um grupo literário que publicou três edições de uma folha literária, de nome Talupa (1968). Nessa época conheci a pintura de Bax, o qual nos doou um quadro, por nós rifado para angariar fundos para as despesas da edição. Do grupo participavam também Léa Nilce Mesquita, Magda Frediani, Maria Ignez Portugal, Regina Souza, Fábio Madureira e Ronald Claver Camargo, jovens apaixonados por arte e literatura. A história de Talupa foi contada por Léa Nilce Mesquita, em Talupa lixeratura 68/98 - 30 anos, (Belo Horizonte: Formato, 1998).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Viva o povo brasileiro


Livro do mês

João Ubaldo procede, neste romance, a amplo recorte temporal, do século XVI ao século XX, num esforço de reconstruir a sociedade brasileira, resultado de mistura de raças e mestiçagem cultural. O narrador acompanha a evolução de grupos humanos que se fixaram no Recôncavo baiano no século dezesseis, o embate de culturas e a formação do que se poderia chamar de sentimento identitário brasileiro, em sua dinâmica e conflitos, em seu hibridismo cultural jamais finalizado. Só desta forma se concebe um projeto étnico, enquanto processo em contínuo enriquecimento, jamais se dando por acabado e pronto. Ao sentimento nacionalista de pertença a uma cultura subjaz quase sempre a inveja ao sistema cultural oposto. Esta já era a crença de um intelectual do século dezenove, representado no romance:

Na verdade, sustento que a mestiçagem é uma real alavanca do progresso desta terra, pois que o espírito do europeu dificilmente suporta as contorções necessárias para o entendimento de circunstâncias tão fora da experiência e vocação humanas. Eis que o Brasil não pode ser um povo em si mesmo, de maneira que as forças civilizadoras hão de exercer-se através de uma classe, no caso os mestiços, que combine a rudeza dos negros com algo da inteligência do branco (Ribeiro, 1984, p.119).

Em grandiosa empreitada, realizada em linguagem polifônica, apta a recuperar os inumeráveis usos da língua portuguesa em território americano, o narrador projeta-se numa dilatada linha do tempo, ao focalizar a evolução de um grupo étnico em sua fixação à terra, seus costumes e ações durante quatro séculos. As descrições da paisagem tropical alternam-se ao panorama de crendices, exotismos, batalhas e luta pela sobrevivência. Assim, o clã de Perilo Ambrósio reveste-se de traços comportamentais específicos, delineadores de representação racial. As peripécias são contadas de forma linear, uma linearidade irregular, contaminada por avanços e ziguezagues, em células dinâmicas, expressas em blocos narrativos, numa progressão cronológica que tangencia alguns fatos da história oficial. Ao narrar os primeiros lances do que teriam sido os primórdios da colonização, indígenas aterrorizavam os europeus, aqui chegados numa aventura exploratória marcada pela violência e cobiça desenfreada. Os atos de antropofagia então cometidos surpreendem pela naturalidade e ironia com que são narrados, mesclando os dados culturais da culinária portuguesa à visão animalesca, primitiva dos selvagens:

O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de lingüiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele (Ribeiro, 1984, p.42-43).

Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton, antigo mulato de confiança do barão Perilo Ambrósio, através de expedientes ilícitos e manobras corruptas, consegue enriquecer-se, apoderando-se do patrimônio do antigo protetor. Seu nome,“resultado da união anglo-portuguesa”(Ribeiro,1986,p.234), união orgulhosamente por ele atestada mais de uma vez, denota a mestiçagem cultural. Numa das recepções promovidas em sua residência, diante de altas instâncias da religião e do exército, Amleto expõe uma concepção elitista de cultura, ao excluir os pobres (negros e mulatos):

Mesmo depuradas, como prevejo, as classes trabalhadoras não serão jamais o povo brasileiro, eis que esse povo será representado pela classe dirigente, única que verdadeiramente faz juz a foros de civilização nos moldes superiores europeus – pois quem somos nós senão europeus transplantados? (...) Que somos hoje? Alguns poucos civilizados, uma horda medonha de negros, pardos e bugres (Ribeiro, 1986, p.245).

Um dos recursos convocados constitui a suposta equivalência dos contrários, seja para aproximar homens de animais, seja para opor a língua dos brancos à dos negros, ou confrontar a cultura européia à dos trópicos. A caracterização primitiva das personagens atinge o ponto extremo ao equiparar os homens a animais: o Barão, em sua agonia, teria sido acometido pela raiva canina. Quando tudo parecia anunciar o fim, o moribundo vocifera um palavrão, chamando para perto de si um negro, o qual atende por emblemático nome de anjo. Com a promessa de que lhe faria uma “importante comunicação”, o Barão morde-lhe a orelha: “...havendo os dois sido encontrados ainda nesse enlaçamento conturbado, o barão respondendo apenas com rosnidos ao que lhe falavam e Rafael Arcanjo berrando como um porco esfaqueado” (Ribeiro, 1984, p.201). Não é ingênua a presença do negro de nome angélico ao lado do senhor rural. Nada é anunciado, a ironia ocorre por conta de promessa não cumprida e do nome do negro. Tudo ocorre dentro de um sistema de trocas e assimilações, recusas e transformações. Algumas vezes o vazio é solenemente preenchido de maneira falsa e hipócrita:

Infelizmente, ninguém ficou certo quanto a suas últimas palavras, mas Frei Hilário, que esteve junto a ele até o desenlace, anotou as que – claro milagre, para quem já não falava ou sequer via – ele murmurou na escuridão do quarto, a poucos minutos do final: “Pátria, honradez, luta, abnegação. Haverei servido bem a Deus e ao Brasil?" (Ribeiro, 1984, p.203).

A construção de traços identitários comporta desvios e confrontos diante da ideologia hegemônica. Por seu turno, os embates gerados no interior das relações de trocas, à medida que se afastam das idéias de centralidade, não objetivam apagar de todo os resíduos da cultura transplantada, mas operam numa dinâmica produtiva de aproximação/afastamento. A transformação de Dafé em bandoleira, uma guerreira sem vínculos com o aparelho estatal de segurança, ilustra a hipótese. Chefe de bando opositor, o lugar de Dafé no universo narrado é um lugar ambíguo. Ali estão definidos e estabilizados os lugares do dominante e do subalterno, o negro. A recusa em inscrever-se como objeto de prazer dos senhores marginaliza-a socialmente. Sua transformação em guerreira destemida marginaliza-a institucionalmente, perante o Estado. Mas não deixa de ser curioso: mesmo procurada pelo Estado, ela mantém relações clandestinas com o aparato militar. No velório de Leléu, ela e seu bando comparecem disfarçados de militares. À época da guerra do Paraguai, ela instrui um elemento do bando para se alistar no exército do Imperador, porque ali teria muito que “ver e aprender”. Não deixa de ser igualmente relevante o sentimento nacionalista por ela proclamado: “Eu também sinto um arrepio quando se fala no Brasil, quando ouço os hinos e vejo o povo levantar os olhos para a bandeira. Pois não é a nossa bandeira e é nossa bandeira” (Ribeiro, 1984, p.431).

Cabe falar em painel social? Sem dúvida e de forma superlativa: um grande painel social, em tempos de ficção encolhida e mirrada. João Ubaldo atinge mais uma vez um patamar de admirável domínio criativo. Incomparavelmente belo, o romance efetua a conjunção de uma pluralidade de vozes e discursos (o folclórico, o literário, o mítico, o histórico), numa grandiosa alegoria da formação étnica brasileira. Ainda que aberta à circulação de idéias polêmicas, a ficção brasileira mais uma vez mostra-se inscrita num projeto nacionalista, no qual muitas vezes busca sua legitimidade, na linha do pensamento de uma crítica de tendência histórico-social:

Quem escreve, contribui e se inscreve num processo histórico de elaboração nacional. (...) A literatura no Brasil, como a dos outros países latino-americanos, é marcada por este compromisso com a vida nacional no seu conjunto, circunstância que inexiste nas literaturas dos países de velha cultura (Candido, 1981, p.18).

Engajado, sem incorrer no tom panfletário, divertidíssimo, sem apelar à banalidade, o romance dialoga com a grande epopéia, recuperando o vigor e a densa espessura dos relatos de fundação, sem excluir as idéias humanistas e as notas de puro encantamento.

Referências bibliográficas:


CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira. 9. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.
RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record/Altaya, 1984.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Alécio Cunha (1969-2009)


(A imagem é de Marcelo Prates, do Hoje em dia. )
Após quase dois meses em coma, em sequela de acidente vascular cerebral, morreu dia 29 último, no Hospital Vila da Serra, o poeta, jornalista e talentoso repórter cultural Alécio Cunha, aos quarenta anos.


Editor de cultura do Jornal Hoje em dia, desde 1995, manteve uma atuação de referência, comentando os lançamentos literários e eventos artísticos no âmbito estadual e nacional. Suas resenhas, fundamentadas em sólida bagagem cultural, com trânsito em várias áreas do saber, escritas de forma elegante, cumpriam a contento e com desenvoltura a função de determinar o contexto e a importância do objeto resenhado, destacando os tópicos relevantes e os núcleos temáticos mais salientes. Sua produção poética compreende dois títulos, Lírica caduca (1999) e Mínima memória (2007), tendo publicado ainda o ensaio Mário Mariano, voltado para as artes plásticas. Entre as produções recentes, destacam-se apreciáveis crônicas, calcadas no memorialismo.


Estive uma vez com Alécio Cunha, na redação do Hoje em dia, divulgando lançamento de livro. Impressionaram-me, além da disponibilidade e do trato afável, a memória prodigiosa e os excessivos dados enunciados sobre meu trabalho. Duas vezes enviei-lhe mensagem, por e-mail, uma agradecendo a resenha sobre O lobo do cerrado, a outra solicitando autorização para publicá-la no site clickescritores.com.br. Uma página admirável de pródigas e certeiras reflexões. Disse que nem precisava pedir licença.


Diante do irremediável, uma coisa é certa agora. Na editoria etérea e definitiva, abarrotada de tesouros, entre bandeirolas e guirlandas, teve festa e os dois brincaram muito. Ele e o outro bonachão.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Outono em Lisboa



acolhe-me
octogonal arcada de dona
maria II (teatro nacional)


dispenso cavalos táxis carris
reis guerreiros de bronze esverdeado
e as pombas de negras asas


inclusive o teu árdego animal
(gostas mesmo de montar)
vigiando uma praça caolha no porto


aqui estás a pé como eu,
dom pedro IV de portugal
I do ipiranga no brasil


de nada me servem
essas montarias assustadas
no confuso trânsito de lisboa

esta manhã de sandálias atadas
ao peito e mochila pesada
livros comprados em alfarrabistas

postais kodak faianças susto
folhetos gismonti & orquestra
deixa-me sentar doem-me os pés


cadeira de ferro forjado
esta manhã o tejo enevoado me cegou
o tejo e o gume lacerante de um rosto

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lembrando Portugal




      Tudo é pretexto para comemorar o livro do mês. Faz treze anos que passei três meses em Portugal, onde tem início e se desenvolvem dois terços da trama de Outono atordoado. Sim, primavera cá, outono lá, o frio dizendo a que viera com vontade. Algumas situações do livro são autobiográficas: não existiria o protagonista Onireves (o Severino de trás pra frente) se uma bolsa de estudos não fosse responsável por eu ter dado os costados em Lisboa, em outubro de 1996. E como esquecer o prazer de caminhar a pé na cidade, descer a avenida da Liberdade rumo do Rossio, atravessar o Chiado, percorrer o Terreiro do Paço e ficar maravilhado diante do Tejo? É verdade que me constipei, bancando o turista americano de camiseta branca e bota de couro. Nada que dois conhaques não curassem em dois dias. O difícil mesmo foi achar Conhaque na terra vinho. A residência em que me hospedei, na praça do Saldanha, próximo ao shopping Monumental, que lá se chama Centro comercial. A qualquer hora do dia e mesmo de madrugada, a segurança de poder voltar a pé para o hotel. Sem falar na rapidez, asseio e conforto nas incursões urbanas através do metrô. Os jantares no antigo cais de Alcântara, acompanhado pelos poetas Helder Moura Pereira e António Franco Alexandre, como esquecer? A perplexidade diante da estátua de Camões, na praça do Chiado. A sopa de tomate no café, de nome Grêmio Literário, no Bairro Alto. As livrarias e alfarrábios nos arredores do Teatro da Trindade. Os almoços e lanches no bar do Teatro d. Maria II. Assistir ali a uma peça, tendo o privilégio de avistar na plateia escritores de renome, como Lídia Jorge e Mário Cláudio. Conhecer poetas interessantes como Luís Manuel Gaspar, Fernando Pinto do Amaral (meu orientador, de quem recebi preciosas sugestões, em três longos encontros), Joana Varela, então prestigiada diretora da revista Colóquio-letras, Nuno Júdice, Fernando B. Martinho, Manuel António Pina (que nos recepcionou no Porto). As águas de uma coloração verde granítica do rio Douro, a fascinante ribeira da cidade do Porto. Obrigado a todos. Mesmo aqueles que vim a conhecer depois, por correspondência e intercâmbio, como Eduardo Pitta, Abel Barros Baptista.

      Como estou lendo relendo Vinícius de Morais, transcrevo, fazendo minhas as palavras do poeta, passagens da crônica “Obrigado, Portugal!”, publicada no Jornal do Brasil,em 15/6/1969:

      “A gentileza humana parece ter feito seu último reduto em Portugal. E quando eu falo em gentileza, dou-lhe quase a acepção medieval de amor cortês, de media, de mesura. É um povo que não levanta a voz, e ninguém pense que por covardia, mas por uma boa educação instintiva e um senso inato de afetividade. Essa desagradável invenção moderna, o berro, não encontra forma vocal na garganta de um português. (...)
      Isto é tão mais curioso quanto, apesar de pobre e subdesenvolvido em sua grande maioria, o português é um povo saudável e de bom aspecto, com boa pele e dentes magníficos, bem certo fruto de uma alimentação mais adequada: nada como o brasileiro menos aquinhoado das regiões pobres do País, no geral malsão e banguela, além de irônico e desconfiado por mecanismo de descrença e autodefesa.
      Obrigado, Portugal! No contato de tuas gentes, teus escritores e teus artistas, teus estudantes e teus simples – teu povinho das brancas aldeias! - eu senti que há ainda muito isso que cada dia mais falta ao mundo: carinho e sinceridade. Represados, talvez, mas latentes como o sangue sob a pele, e prontos a romper a crosta criada a duras penas, ao longo de um passado tão cheio de sacrifícios e infortúnios. (...)
      Obrigado, Óbidos, que pareces feita no céu, tão linda e pura, como uma avozinha menina que ainda usasse flores silvestres na cabeça. Obrigado, Évora, mãe alentejana de Ouro Preto, cidade onde mais que nenhuma outra se sente o Brasil colonial, o Brasil de Aleijadinho, cidade perfeita de gentil austeridade. Obrigado, Monserraz, que, esta não quero ver nunca mais porque se a ela voltar nela hei de ficar, entre seus muros brancos e seus homens e mulheres do mais franco olhar. Obrigado, Portugal. Resta sempre uma esperança. Eu voltarei”.

(MORAES, Vinícius de. Poesia completa e prosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1986, p.655-656)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Paulo Merçon: estreia de um bom poeta




A estreia de um poeta novo e que surge aparelhado para o ofício é sempre um acontecimento raro e auspicioso. Depois de amanhã, no Palácio das Artes. O prefácio é assinado por mim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Jornada com Rupert




Resenha do mês:


Salim Miguel é libanês, nascido em 1924, tendo emigrado para o Brasil na infância. De 1976 a 1979, foi um dos editores da revista Ficção, ao lado de Fausto Cunha e Cícero Sandroni. Publicou em torno de trinta livros, nos gêneros crônica e ficção. Entre os mais apreciáveis, na área da ficção, citam-se Nur na escuridão (1999), Mare nostrum (2005) e A voz submersa (2007). Foi agraciado neste ano com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, no valor de R$ 100 mil.

O projeto de Jornada com Rupert (2008) é ambicioso, arrojado: percorrer um século de história no percurso de um dia na vida do protagonista. Para concretizá-lo, o autor vale-se de inúmeros recursos técnicos, quase todos relacionados à tentativa de sugerir mudanças do plano temporal. Predominam as alusões às situações articuladas ao ato (ou tentativa) de dormir, sonhar, cochilar, devanear, encarregadas de expressar as bruscas passagens de tempo. Na “Nota final”, o autor afirma que “as primeiras anotações a pesquisas para este livro datam de 1948”, o projeto teria sido retomado em 2006, portanto, mais de cinquenta anos depois. O necessário distanciamento teria o condão de proporcionar a necessária serenidade para transformar uma parte da história em ficção. O processo apresenta dois riscos: ignorar a especificidade psíquica do protagonista, equilibrar a celeridade narrativa à lentidão dos atos de um dia. “Não consegue dormir; os comprimidos e a febrícula deixaram-no mais aceso: tudo culpa da Jandira, que foi falar em Ilze; as lembranças afluem e esse se sente em outro tempo”. Diante do romance publicado, uma evidência impõe-se: o recorte épico resulta excessivamente transfigurado, o apanhado sobre a colonização alemã no sul do país não passa de um relatório frio, transformando as prováveis rebeliões e batalhas em pálidas sinopses sem vida.

O tempo, implacável, caminha a passos largos; a sucessividade dos acontecimentos e personagens, flagrados de relance e de forma panorâmica, potencializa o ritmo e a atmosfera típicos de novela. Os resumos multiplicam-se, de forma horizontal, em linguagem carregada de lugares-comuns, convencional: “Contratou uma governanta, Gertrud, senhora idosa, que sabia alemão e português, ficando ela com a responsabilidade da casa e dos cuidados com Ilze, a quem ia ensinando ambos os idiomas, enquanto o pai ensinava francês e espanhol. Tinham uma empregada para os afazeres domésticos, cozinheira de “mão cheia”. Em pouco tempo Günther fizera muitos amigos; além de cuidar da loja, também exímio fotógrafo, ia documentando a cidade que escolhera para viver”. Rupert, o filho rebelde de uma família de alemães emigrados para o Brasil, viaja no tempo. O escritor leva-o a visitar vários episódios ocorridos ao longo de um século, no intuito de retratar as origens de sua família e a história de sua cidade, Blumenau. Pequenos relatos do cotidiano ampliam-se, na sôfrega e desordenada associação entre presente e passado. Um adjunto adverbial, uma notação de tempo, eis que o tempo é outro, outro o cenário. Esse tipo de relato, a princípio, envolvente, torna-se exaustivo, dando sono.
“Num passe de mágica o cenário se transmuta diante de seus olhos: ali estão os desbravadores, os colonos chegando, subindo rio acima. Agora, as casas que se erguiam altaneiras deram lugar às antigas choupanas; as fábricas já não mais ali estão; nem as ruas e as praças. Diante de Rupert a mata virgem de um século atrás (p. 49).”

Algumas cenas de presentificação do passado carecem de um mínimo de fundamentação histórica ou verossimilhança, como no capítulo de título “1855”, de página e meia, concebido para relatar o avô de Rupert chegando da Europa: “Sem precisar a data, Rupert assiste a uma dessas chegadas; é justamente nela que vêm seus avô e tio-avô.” Como assiste? se o tempo presente presumível do protagonista é 1949, como poderia assistir à chegada dos imigrantes alemães ocorrida em 1855? A recorrência de artifícios romanescos demasiado difusos (mescla de fantasia/realidade, presente/passado, avanços repentinos no tempo) compromete a verdade ficcional, desinteressando o leitor exigente. O mesmo a princípio atraído pela publicidade da revista Istoé, transcrita na capa: “Salim Miguel: técnica soberba”. Alguma coisa mudou de nome? Algumas intersecções de tempo e ação parecem funcionar apenas na cabeça do narrador, dado o excesso de saltos narrativos nem sempre convincentes. O princípio universal das perfomances e equivalências, de herança machadiana, também conhecido como equivalência de polaridades, regula tacitamente a eficácia ou pertinência dos arroubos técnicos. A rasa dimensão psicológica atribuída ao protagonista e o foco narrativo em terceira pessoa, com ênfase na perspectiva de um narrador distanciado, reduzem a efetividade das engenhosas possibilidades de alteração do tempo narrativo almejadas. Como no final do cap. “Trem”, em que se lê, após inúmeros cortes temporais e espaciais: “(...) cambaleante vai até a janela, o vento empurra-o, a custo fecha-a com um trinco, volta a se deitar, de barriga para cima, olhos fixos no madeirame pontilhado de teias de aranha, apaga a luz, e sem perceber já está não apenas dormindo, mas acabou de chegar ao tombadilho do navio, que logo desatraca”. Confuso, o leitor (aquele que conseguiu chegar até à pag. 171) relê duas folhas atrás, para se dar conta de que Rupert teria saído da “boa pensão”, onde passara a noite, e já estava a bordo de um navio. Rápido, não?

Apesar dos atropelos em acompanhar os cortes temporais, a narração dá conta do objetivo de sintetizar os principais acontecimentos relacionados à emigração de alemães para Santa Catarina, os primórdios da fundação da cidade de Blumenau, a evolução da incipiente colônia agrícola para o núcleo industrial e os conflitos da família Van Hartroieg. Se as camadas narrativas se entrelaçam de forma panorâmica, a jornada com Rupert não se frustra, passando a ter espessura e densidade quando está em foco o núcleo familiar. Se a colonização européia recebe um tratamento asséptico, o mesmo não se pode dizer de Rupert e família, o pai um empresário bem sucedido, adepto de Hitler, a mãe ausente, um irmão exemplar, outro desaparecido em enchente. Os costumes e noções sobre a cultura alemã parecem curiosidades entreouvidas do último banco em jantar de tradições germânicas. Enfim, um romance medíocre, de modestas intenções, perspectiva miúda, cenas frágeis. Como se tratasse de um mediano relatório burocrático, embora aqui e ali atravessado de boas justificativas e um paciente esforço de reconstituição dos dramas de uma família.

MIGUEL, Salim. Jornada com Rupert. Rio de Janeiro: Record, 2008.

sábado, 31 de outubro de 2009

Rui Mourão na Academia




Dia 29 de outubro, à noite, compareci à posse solene do romancista Rui Mourão, nome fundamental da cultura mineira, na Academia Mineira de Letras. Chovia fino. Chovesse canivete participaria do mesmo jeito, em retribuição à presença do escritor (e a inseparável e elegante esposa) ao lançamento do meu Mosaico insólito, em noite chuvosa de dezembro de 2006. Nesse livro de crítica, diga-se de passagem, Rui Mourão ombreia com Drummond, os únicos aos quais dedico dois artigos. Isto basta para remeter o interessado em conhecer a importância do autor na literatura brasileira, desde o romance Raízes (1956), passando pela revista Tendência (1957) e romances fundamentais para a compreensão da cultura mineira e brasileira, como Curral dos crucificados (1971), Cidade calabouço (1973), Monólogo do escorpião (1983), Boca de chafariz (1991), Invasões no carrossel (2001).

Rui Mourão foi saudado por Angelo Osvaldo de Araújo, escritor e prefeito de Ouro Preto, que, em arroubos de contorcionista, tentou configurar o último romance do recém empossado (Quando os demônios descem o morro), sobre o qual comentei aqui, como suprema síntese da produção do autor. Discordo, mas não vem ao caso. A realização que poderia ser invocada como síntese do romancista, a meu ver, é Boca de chafariz. Rui Mourão proferiu um discurso esplêndido e brilhante; discorreu sobre o percurso pessoal e do grupo de Tendência, discutiu a atual crise da literatura, a relativização de seu papel na cultura contemporânea e os impasses com os quais convive o escritor empenhado ideologicamente.

A entrada de Rui Mourão na AML é uma entre as inúmeras atuações positivas do atual presidente da AML, o renomado biógrafo e romancista Murilo Badaró, no sentido de promover a instituição, como centro aglutinador de arte e cultura, no âmbito das comemorações do seu centenário. À gestão dinâmica de Murilo Badaró, deve-se a recente visibilidade da agremiação, após décadas de apagado percurso, apesar de agregar nomes importantes da literatura brasileira, hoje (Antenor Pimenta, Bartolomeu Queirós, Fábio Lucas, José Bento Salles, M. Badaró, Yeda Prates Bernis) no passado (Ciro dos Anjos, Henriqueta Lisboa, José Afrânio Moreira Duarte, entre outros). Merece registro o romance publicado recentemente pelo presidente da Casa, Memórias póstumas de Francisco Badaró.

O moderno auditório, construído ao lado da sede da instituição (foto), ficou lotado, com personalidades do mundo das artes, universidade e das letras. Murilo Badaró anunciou outros eventos ainda para 2009, como uma exposição e o lançamento da coleção dos livros do centenário, no total de cinco. Vamos ver quais os títulos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Curiosidades sobre prêmios literários



Em debate a segunda premiação em concurso literário. Considerado por alguns como meio prêmio, ou prêmio de consolação, o segundo lugar faz jus a quantia financeira inferior à do primeiro lugar, quando é o caso. Na cultura portuguesa, a tradição confere ao segundo lugar uma importante e ilustre linhagem. Duas das maiores expressões literárias lusas (um na prosa, outro na poesia) tiveram obras estigmatizadas por terem tido a segunda premiação em concursos literários: Eça de Queirós e Fernando Pessoa.

Eça de Queirós teve a segunda premiação com o romance A relíquia, (1884), em que o fantástico se mistura ao satírico. Sobre o autor, escreveram-se inúmeros livros, é autor que exerce grande influência sobre outros escritores, em Portugal e no Brasil. Sobre sua obra debruçaram-se exegetas notáveis dos dois lados do oceano: o primeiro brasileiro a escrever no Brasil sobre um de seus romances (O primo Basílio) foi Machado de Assis. A avaliação definitiva é de Antônio J. Saraiva e Oscar Lópes: “Eça de Queirós é talvez como prosador a mais completa, multifacetada e apurada organização de artista de toda a literatura portuguesa” (SARAIVA; LÓPES, 1955, p. 932).

O caso relacionado com Mensagem, de Fernando Pessoa, reveste-se de alguma indignação, a princípio, e discutível compreensão, quando se analisa o contexto histórico do concurso. Era um torneio oficial, promovido pelo serviço de propaganda da ditadura salazarista. O primeiro lugar foi atribuído ao livro de versos religiosos Romaria, assinado por um padre, cuja notoriedade deve-se justamente a tal circunstância. Mensagem, o único livro que o criador dos heterônimos viu editado, ficou com o segundo galardão.

Na literatura brasileira, o caso mais famoso envolve Sagarana, de Guimarães Rosa: em sua primeira versão, em 1937, com mais de 500 páginas, submetido ao prêmio Graça Aranha, da Editora José Olimpio, foi classificado em segundo lugar. Após alterações radicais, foi publicado em 1946, com 300 páginas.

No ano passado, no Brasil, o romance O filho eterno, de Cristóvão Tezza (foto acima), conquistou os quatro maiores prêmios literários (Jabuti, Portugal Telecon, São Paulo, Passo Fundo), abiscoitando em torno de R$ 500.000,00 reais.

SARAIVA, Antonio José; LÓPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Ed., 1955.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Suplemento Literário de Minas Gerais


Voltou a circular o SLMG

De visual novo, concepção gráfica limpa e arrojada, está de novo na praça o Suplemento literário de Minas Gerais. Ou melhor, o SUPLEMGNTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS. Assim mesmo. Ao inscrever no logotipo a marca oficial do Estado de Minas (MG), o atual editor sinaliza a intenção de retomar a sua vertente criativa, nos moldes como foi concebido por Murilo Rubião em fins dos anos sessenta do século passado. Sem ignorar que se trata de um patrimônio cultural do Estado. Inteligente forma de estreia, a escolhida por Jaime Prado Gouvêa, na medida em que delimita duplamente os motivos (e as fronteiras) de sua intervenção: inovação, sim, mas aquela possível, em vista da chancela oficial.

Jaime Prado Gouvêa, além de excelente ficcionista, entre os vinte melhores do Brasil, como registrei em matéria aqui (http://wwwideiasubalterna.blogspot.com/2009/08/o-conto-brasileiro-contemporaneo-iv.html), é uma das pratas da Casa Suplemento, a ela conduzido, quase garoto nos anos 70, pela escolha criteriosa e exigente do fundador. O autor de Fichas de vitrola foi duas vezes injustiçado: no Jabuti de 2008, ficou entre os três indicados na categoria conto; em 2001, no concurso da Revista Literária 6 da UFMG, obteve o segundo lugar. Merecia o primeiro lugar, nos dois certames. No último evento, esse lugar foi meu, com “Imenso, cego, brutal”, reproduzido integralmente alhures. Os prêmios têm lá seus mistérios. Sempre que reencontro o Jaime, ele é que relembra o fato em tom de brincadeira. Tudo vem ao caso para outro registro, este para referir que, mais do que merecida, sua nomeação para dirigir o Suplemento Literário confirma outra tradição mineira: delegar a gestão cultural a alguém da área, no caso, um grande escritor, como se deu no passado, com Murilo Rubião, Affonso Ávila, Rui Mourão, Wander Pirolli.

O número especial tem como tema a recepção da literatura brasileira na Espanha, um produtivo esforço de aproximação das duas culturas, mostra do caráter receptivo da atual editoria aos diálogos transnacionais. Relevantes pesquisadores, autores e tradutores (focalizando a obra de Machado, Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Clarice e Manoel de Barros) são convocados para partilhar sua experiência como divulgadores de nossa cultura no chão ibérico. Entre eles, brasileiros, uruguaios e espanhóis, como Alessandra Carvalho, Elena Losada, Pablo del Barco, Ángel Crespo, Emir Rodríguez Monegal e Julián Ríos. Parte do brilho e colorido gráfico deve-se a Sara Ramos, artista plástica mineira e madrileña.

domingo, 18 de outubro de 2009

Relações intertextuais



Divulgo para confronto, discussão e análise, à luz do conceito de intertextualidade, dois textos de autores portugueses contemporâneos. Embora de gêneros diferentes, os dois textos estabelecem um diálogo intertextual. De um lado, um texto de ficção experimental, assinado por Almeida Faria.


“ ... meu rosto procura teu rosto no anônimo rosto da multidão assim talvez passe por ti talvez esteja ao pé de ti e apesar de tudo não te vi e o zero que vou na minha origem caminhando às cegas para um zero igual apodera-se de mim numa vertigem vertiginosamente viva vertical e de tudo que sou e que me falta ser resta-me só esta cadenciada vil respiração a que por convenção ouço chamar viver a minha voz tentando superar o peso esquizotímico dos passos ergue-se a custo contra o tempo mudo em seus gritos agudos e em tudo me mudo no átomo no corpúsculo na onda nos quanta ...”

FARIA, Almeida. Rumor branco. 2. ed. Lisboa: Portugália, 1970, p. 78.


De outro lado, um poema de Hélder Moura Pereira, um dos integrantes de Cartucho (Lisboa, 1976), autor ao qual dediquei um esboço de análise no livro Portugal, poetas do fim do milênio (Rio de Janeiro: Sette letras, 1999):

“Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria ao teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta” (...).


PEREIRA, Hélder Moura. Os tranquilos sobressaltos. Porto: Gota de Água, 1982.

Não se trata de cotejar a angústia da influência, mas perceber como os dois textos apresentam marcas que os aproximam, certa atmosfera cosmopolita, notas de solidão, a subjetividade magoada, a linguagem sincopada. O conceito de intertextualidade foi desenvolvido por M. Bakthine e recebeu contribuições de vários estudiosos, entre os quais, Julia Kristeva, Gérard Genette, Tzvetan Todorov. Conceito fundamental nos estudos de literatura comparada, a intertextualidade pressupõe a literatura como instrumento de comunicação de experiência humana e estuda as relações semânticas e estruturais entre os textos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A tendência interdisciplinar da ciência moderna

Imagem extraída de: http://joseantunes.wordpress.com/2007/01/09/borboletas/

Não constitui novidade para ninguém minimamente informado que o conceito de ciência, na sociedade contemporânea, adiciona cada vez mais a necessidade de expansão e a tendência interdisciplinar do saber moderno. A crescente evolução dos meios de comunicação, aliada ao intercâmbio dos bens culturais e à consciência da preservação da natureza, elabora continuamente uma agenda de ações e metas, tanto no plano dos Estados como no das instituições, voltada para as trocas de experiências e análises aprofundadas. Os grandes desafios a que estão sujeitos os diversos povos do planeta, seja na manutenção da atividade produtiva, seja na defesa diante das catástrofes naturais, demandam cada vez mais a integração de esforços e a disponibilização do legado empírico de todos os grupos humanos. O sociólogo português Boaventura de Souza Santos, em Pela mão de Alice, descreve o perfil de um novo paradigma sócio-cultural, para o contexto pós-moderno, apresentando as condições sociais de sua emergência:

O projeto sócio-cultural da modernidade é um projeto muito rico, capaz de infinitas possibilidades e, como tal, muito complexo e sujeito a desenvolvimentos contraditórios. Assenta em dois pilares fundamentais, o pilar da regulação e o pilar da emancipação. São pilares, eles próprios, complexos, cada um constituído por três princípios. O pilar da regulação é constituído pelo princípio do Estado, cuja articulação se deve principalmente a Hobbes; pelo princípio do mercado, dominante sobretudo na obra de Locke; e pelo princípio da comunidade, cuja formulação domina toda a filosofia política de Rousseau (SANTOS, 1999, p.70-71).

A importância da área jurídica para a disseminação e efetiva consolidação dos objetivos intrínsecos do que o sociólogo denomina “pilar de regulação” é fundamental; as bases teóricas de sua formulação, desde o seu nascedouro, englobam figuras tutelares da reflexão sobre o Direito. No entanto, o primado do saber jurídico não é absoluto, em função da complexidade das relações humanas e da sofisticada diversificação das áreas envolvidas:


Por sua vez, o pilar da emancipação é constituído por três lógicas de racionalidade: a racionalidade estético-expressiva da arte e da literatura; a racionalidade moral-prática da ética e do direito; e a racionalidade cognitivo-instrumental da ciência e da técnica. (...) A racionalidade estético-expressiva articula-se privilegiadamente com o princípio da comunidade, porque é nela que se condensam as idéias de identidade e de comunhão sem as quais não é possível a contemplação estética. A racionalidade moral-prática liga-se preferencialmente ao princípio do Estado na medida em que a este compete definir e fazer cumprir um mínimo ético para o que é dotado do monopólio da produção e da distribuição do direito (SANTOS, 1999, p.71).

O mundo contemporâneo reclama de forma incisiva que a ciência jurídica incorpore cada vez mais uma dimensão social, posicionando-se como um dos vetores de transformação da sociedade. Renomados especialistas têm expressado o intento de se repensar a Ciência do Direito, tradicionalmente compreendida como um conjunto de teorias sobre as normas vigentes numa sociedade e sua prática operacional na solução de conflitos. Entre os estudiosos questionadores da excessiva ênfase dada ao aspecto regulador do Direito, situa-se Miraci B. Gustin, quando afirma:

A ciência jurídica contemporânea apela à razoabilidade, ao conhecimento crítico e à reconceituação do ato justo. Suas formas de produção do conhecimento são discursivas e seu conjunto de complexos argumentativos trabalha com a validade dos argumentos por sua relevância prática e sua capacidade de emancipação dos grupos sociais e dos indivíduos (GUSTIN, 2006, p.11).

A mudança de rumos na Ciência do Direito passa pelo aprofundamento de sua relação com disciplinas de domínio conexo, tais como a Sociologia, a Filosofia, a Antropologia, a História, a Economia, e (por que não?) a Literatura, a Biologia e a Ecologia. As duas últimas são imprescindíveis na formação do novo profissional, o consultor ambiental, ou seja, o advogado formado com ênfase em questões ecológicas. A Bioética, por sua vez, oferece subsídios, em questões atinentes a intoleráveis experimentos que envolvem a biotecnologia, tendo em vista a possibilidade de sua aplicação em atividades terroristas. A Literatura oferece riquíssimo repertório de narrativas que envolvem o ser humano, em situações singulares e extremas de conflitos e emoção. Se a arte nos torna mais humanos e sensíveis e se o Direito nos encaminha para a ética e a justiça, a cooperação das duas instâncias será produtiva e emancipadora. Muito mais do que representar a realidade visível, a arte muitas vezes afasta-se dos limites do real, daquilo que se nomeia e tem forma, buscando, nas formas e linhas soltas do caos, elementos capazes de dar-lhes corpo. As obsessões oníricas e as associações inesperadas do surrealismo são capturadas através da palavra, que lhes transfere sensações táteis, sonoras, visuais. A mesma autora, Miraci Gustin, reconhece a importância da postura interdisciplinar e do diálogo entre as disciplinas, numa sociedade cada vez mais complexa:

Até muito recentemente (meados do século XX), predominaram a unidisciplinaridade e a metodologia monográfica, que não pretendiam uma visão de totalidade. No pós-guerra, ocorre uma mudança de rumos. A realidade, cada vez mais complexa, é problematizada e experimenta-se a institucionalização da pesquisa. O enfoque das pesquisas deixa de ser monológico e, no primeiro momento, assume uma vertente da multidisciplinaridade, ou seja, de cooperação teórica entre campos de conhecimento antes distanciados (GUSTIN, 2006, p.8).

Boaventura S. Santos elabora com muita lucidez a interessante alegoria da ave da ciência: esta ave, segundo ele, voa mal e perigosamente porque uma asa tem “tirocínio crítico” e voa alto, enquanto a outra asa voa baixo, dada a sua “vocação de cumplicidade”. O nosso desejo é que o Direito, saber em si mesmo multifacetado, funcione, no âmbito das outras áreas, como pêndulo de equilíbrio entre as duas asas: e sobretudo nos faça compreender que a Ciência é, sim, uma conquista do espírito crítico, mas sem contribuir para a alienação corrosiva, a indiferença cínica ou a desumanização.

GUSTIN, Miraci B.S. (Re)pensando a pesquisa jurídica. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.
SANTOS, Boaventura Sousa. Pela mão de Alice. 7. ed. Porto: Afrontamento, 1999.

sábado, 10 de outubro de 2009

Confidência do forasteiro



(Imagem do centro histórico de Itabira, extraída de Agência Fiocruz de notícias)

Confidência do forasteiro

Lamente o poeta tuas noites brancas,
varridas de vento frio, sem mulheres e horizonte,
afixando na parede teu doído retrato.

Aqui chegados,
meus pés forasteiros palmilham tuas ruas híbridas,
de pedra, minério e asfalto,
teus passeios picotados de cimento, areia e brita.

Os casarões e igrejas de guirlandas barrocas
apontam um tempo de bandeiras ao vento,
em que o ouro escondia liberdade, fortuna e fé.
Os olhos procuram a continuação do morro,
atrás de barrancos ornados de esparsas árvores decorativas:
só encontram grotas decepadas, serras devastadas,
rasa lagoa suja de dejetos e água inquinada.
Deste ao mundo o fazendeiro do ar,
o artífice paciente das palavras:
seus versos derramam saber, manhãs de luz
driblam pedra no meio do caminho.
Deste também ao vasto mundo a Mina:
seus lucros e dividendos rendem
centenas de emprego, de engenheiros a vigilantes,
praças de esporte e coretos inócuos.
Os olhos forasteiros percebem ouvidos à força habituados
a estilhaços de dinamite,
as rachaduras das casas,
o olhar opaco de velhos acometidos de asma e bronquite,
os bilhetes fragmentados de jovens suicidas,
enquanto vagões trafegam carregados de minério a caminho do Oriente.

sábado, 3 de outubro de 2009

Contemplação



Um livro por mês:


Após longa experiência em diversos concursos literários, Terezinha Pereira alcançou, com Em confidência, delicada novela ambientada em Ouro Preto, menção Especial no prêmio Octavio de Faria para livro inédito de 1998. O interesse por lugares históricos é um traço saliente, mencionado no prólogo do conto “Um dia, um enigma”, do segundo livro de ficção: “Desde jovem teve hábito de procurar conhecer e apreciar obras de cunho histórico e artístico durante os poucos períodos de ociosidade permitidos pelo trabalho. Visitar e revisitar cidades históricas, caminhar em suas ruas e ladeiras descobrindo segredos era seu grande prazer”. A novela Em confidência foi publicada em 2000, pela Mazza, de Belo Horizonte. Recebeu a Autora no ano seguinte um prêmio de tradução (Livro aberto/Xerox do Brasil), por A última folha (Cone Sul, 2001), versão do conto The last leave, do norte-americano O. Henry. Contemplação, o segundo livro, objeto deste comentário, é uma coletânea de contos, treze, para combinar com a temática gótica (estórias de assombração) presente em alguns trabalhos.

O conto que abre e nomeia o conjunto, apesar de um tom coloquial às vezes excessivo (como no final da seguinte frase: “Vivia numa minúscula ilha lembrada de Deus e esquecida do mundo, lá pros lados do nordeste”), é um dos pontos altos do livro. Com poucos recursos, bem explorados, a autora consegue urdir uma cena arquetípica, configurando um contexto fundamental com uma pitada de mistério e um apelo mítico. Takes precisos e poéticos iluminam o encontro amoroso entre a moça que vivia isolada numa ilha e o desconhecido que ali aporta num barco e depois desaparece. Nada é gratuito, os objetos descritos cumprem exemplarmente uma função na narrativa, como nesta tomada: “Dentro do barco, deitado, não sabia ela se morto ou não, usando apenas um calção preto, estava um homem diferente de todos que ela já havia conhecido. Junto dele, agarrado que nem uma criança, uma coisa grande, esquisita, que luzia como ouro”. Os tópicos focalizados aos poucos se encaixam e se complementam, como em câmara lenta, carregados de significado: “Fazia-se mudo, olhando a noite. Sem incomodar pessoa alguma, foi ficando. Com a música do seu saxofone contribuía para aumentar a magia do espetáculo do anoitecer”.

Outro momento de intensa voltagem de sentidos é a narrativa especular “Um dia, um enigma”. As aproximações com o fantástico, o jogo entre as sucessivas visões recriam a “estranha inquietude” referida pela psicanálise freudiana, explorando a duplicidade e a fantasia. Um garoto na praia vê um velho emergindo de um barco, o velho confunde-se com o velho da estátua do santo pescador, ao qual se que mistura a visão do homem que parece com o santo, em encadeamentos geradores da ideia de duplicidade. Por estar “mudando a voz”, o garoto é flagrado num momento de extrema agitação e espanto, numa zona fronteiriça da loucura. “Estava certo. Aquele espectro, que um dia ele havia visto se transformar em figura de pescador, era o mesmo homem da estátua de São Pedro Arrependido e o mesmo homem que então avistava chegar de barco, através da janela do restaurante”.

A coletânea, no entanto, apresenta um conjunto irregular de peças. A carpintaria nem sempre é perfeita, o tratamento dado à linguagem repete alguns chavões convencionais. “Ao caminhar pela praia com a mulher de meus sonhos, gozando da alegria do vento que chegava mais forte com o cair da noite e da suave cadência das ondas do mar, imaginei que, enquanto não conseguisse decifrar o mistério de seus segredos, ela seria a mulher de meus sonhos”. O conto é um gênero muito exigente. Alguns são bons, como os dois referidos, “Contemplação” e “Um dia, um enigma”, além de “Uma vez, uma fonte”, “A bola de vez”, “Tormento” (ninguém merece uma vizinha semelhante àquela descrita). Seguem-se outros três de regular fatura; o restante, porém, não atinge o patamar mínimo do plot ficcional. O terma do cidadão que foge da agitação urbana para se refazer na praia, em contato com a natureza, nada tem de ficcional, é assunto (desgastado) para crônica. O mesmo se pode dizer do reencontro de três amigas de colégio de freira, chamadas Maria. O espaço privilegiado da escrita de Terezinha Pereira é um espaço atravessado por gestos humanos essenciais, em que o desenvolvimento intimista da intriga depura o ambiente e a linguagem. Percebe-se inegável talento, além de percepção de conflitos, captação da dimensão humana, domínio de efabulação e de cenário; a questão restritiva fica por conta da linguagem, às vezes algo ultrapassada. A capa flagra uma inexpressiva e anódina imagem marítima. A edição infelizmente vem prejudicada por gralhas e incorreções gráficas inaceitáveis, a editora não tem rosto. Edições alternativas trazem riscos dessa ordem. O português apresenta-se por vezes claudicante, mas seria culpa exclusiva da autora?

PEREIRA, Terezinha. Contemplação. Itaúna: [S.n.], 2005.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Fausto Cunha



Duílio Gomes enviou a seguinte mensagem a este blog - "Caro Edgard. Estou, em nome de Jaime Prado Gouvêa, convidando-o a voltar a publicar no Suplemento Literário de Minas Gerais. Você, como antigo colaborador do SLMG e integrante da geração de escritores mineiros que publicava no semanário nos anos 60/70, é um autor imprescindível a essa nova fase. Várias vezes ouvi e li comentários de escritores sobre essa sua participação, como os de José Afrânio Moreira Duarte no Estado de Minas ("Edgard Pereira dos Reis integra com brilhantismo a nova geração literária mineira que leva adiante o SLMG criado por Murilo Rubião"), Lucienne Samôr, Sérgio Tross, Luiz Gonzaga Vieira e Euclides Marques Andrade”.

A propósito de Duílio Gomes, Fausto Cunha, em A leitura aberta, expressou os mais rasgados elogios aos seus contos.

Fausto Cunha (1928-2004) foi um crítico fundamental para a compreensão da literatura produzida no Brasil entre os anos 50 a 80. Implacável, foi em toda a espessura um crítico militante influente, mantinha crítica literária em jornal, atento ao que se produzia, capacitado para estabelecer a ponte entre a tradição e a novidade. Clarice Lispector o temia, por motivos que ignoro.

Conhecia o trabalho de Fausto Cunha, em especial através de três livros, A luta literária (1964), Aproximações estéticas do onírico (1967), Situações da ficção brasileira (1970). Colegas escritores a ele se referiam com deferência e admiração. Só recentemente tive acesso a um dos seus últimos livros de crítica, A leitura aberta (1978). O próprio autor, em “Nota introdutória”, circunscreve os trabalhos da coletânea em três séries, que, a grosso modo, compreendem: a crítica literária (a mais extensa, com doze capítulos), a ficção e a poesia brasileira, sem mencionar o que seria uma quarta série, os “três temas de literatura portuguesa”. É um profissional consciente do ofício: “Minha geração foi a primeira, no Brasil, que procurou partir para uma leitura armada, um close reading. Surgimos, literariamente, sob o influxo do new criticism (cujas origens remontavam ao princípio do século), da estilística, assistimos à redescoberta da retórica e à adoção do instrumental linguístico no tratamento do texto”. Sem ignorar os mestres, reconhece a contribuição daqueles que “produziram páginas definitivas da crítica literária brasileira”, como Sílvio Romero, José Veríssimo, Araripe Júnior, Machado de Assis, Tristão de Athayde e Mário de Andrade. Seu método pressupõe distanciamento da postura dogmática, autoritária: “...leitura aberta, uma leitura sem pressupostos e sem esquemas prefixados, sensível a uma relação de forma e conteúdo entre autor e crítico”.

Retenho o artigo “O conto novo em Minas”. Datado de 1974, numa perspectiva panorâmica, Fausto Cunha elenca algumas linhas de força da nova ficção mineira, enumera quatro nomes aglutinadores e tutelares das inovações praticadas e cita os principais periódicos (mineiros) empenhados na divulgação do conto. Refere Tendência, Estória, Texto, Suplemento literário, Bel'contos, entre outros. Não pretendo discutir o artigo, mas transcrever duas ou três assertivas, senão curiosas, pelo menos impactantes, de efeito.

A primeira é sobre a estreia da dupla Ivan Angelo e Silviano Santiago. Para Fausto Cunha a nova ficção mineira começa ali, e não em 1965, com Estória.

“Não queremos, porém, datar de Estória os primeiros passos dessa geração e sim de Duas faces (1961), em que apareciam juntos Ivan Ângelo e Silviano Santiago, no que semelhava à primeira vista uma união típica do pote de ferro com o pote de barro: Ivan Ângelo surgia “como uma grande estrela”, para utilizar a frase de Fábio Lucas, com uma linguagem já trabalhada, adulta, algo especiosa, enquanto seu companheiro não dizia a que vinha”. Mais à frente, reergue o companheiro de Ivan Ângelo: “Não abatido com os azares da estreia, Silviano Santiago continuou a escrever e hoje encontra-se numa posição de indiscutível destaque não só na ficção nova de Minas como no âmbito nacional”.

Segundo recorte, sobre Luís Vilela, contista, porque na sequência Fausto Cunha prossegue avaliando o romancista: “Não resta dúvida de que é a maior revelação do conto no Brasil, depois de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, que o antecederam. Tem uma força impressionante, absoluto domínio do diálogo e uma capacidade rara de captar o cotidiano. Seus três primeiros volumes de contos apresentam grande unidade literária, com um amadurecimento sensível em Tarde da noite, seu melhor livro. O fim de tudo é muito bom, mas aquele bom que Luiz Vilela já fez várias vezes. A explosão literária, de Tremor de terra, foi canalizada para um maneirismo que corre o perigo de acabar numa sala de espelhos, tudo se repetindo”.

O terceiro recorte, não esqueçam a data de 1974, transcrevo não apenas para “drapejar a bandeira da vã vaidade” de Duílio Gomes, mas como reconhecimento do seu valor:
“A ausência de livros de vários contistas que têm publicado trabalhos em revistas de novos e no SLMG impede que lhes abra espaço aqui. Uma exceção deve ser feita para Duílio Gomes; sem ter ainda reunido em volume os seus contos, pode já ser considerado, pelo que publicou avulsamente, um dos nomes mais destacados de sua geração, formando na primeira linha do novo conto mineiro”.

CUNHA, Fausto. A leitura aberta. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: INL, 1978.

Enviei há mais dias o texto para Duílio Gomes. Enviou-me na volta o seguinte e-mail:

“Você me deu hoje uma baita alegria citando aquele trecho do livro do Fausto Cunha. Não sabia da existência desse texto. O Fausto era um incentivador das novas letras mineiras (principalmente prosa) junto ao Hélio Pólvora e Assis Brasil. Um trio de ouro. Por quê (caso ache conveniente, claro) Vc não transcreve aquele trecho no seu Blog? Não apenas para drapejar a bandeira de minha vã vaidade literária mas porque se trata de um documento que talvez interesse, sim, aos leitores curiosos desse tipo de crítica avant-la-lettre.
Daqui mando o meu grande abraço amigo. Duílio"

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Alexandre Herculano



Um vizinho doa-me uma coleção de livros de Alexandre Herculano, publicada pela Bertrand, sem data. Como se livrasse de incômodo entulho. Dezenas de livros encadernados, créditos em dourado, que na certa decoravam alguma sala ou escritório insosso. Caso o tio excêntrico (o primeiro doador) mencione interesse em folhear algum título, terá a informação de que está emprestado ao vizinho. A mim. Concordei com o pacto.


Numa apresentação, de Vitorino Nemésio, leio a data de l936. Faltam dois volumes da História da Inquisição, os romance O bobo e Eurico o presbítero, o ponto alto da produção ficcional do grande historiador. Falta talvez a parte mais interessante, a emocionante ficção de Herculano. Os dois últimos, tenho-os em outra edição. Quem ficou com os romances, fez uma escolha, merecedora de aplauso. Após a higienização e limpeza dos volumes, que totalizam trinta e dois, descobri uma verdadeira obra-prima, “De Jersey a Granville”, o relato do retorno de Herculano, junto de outros voluntários do exército da Rainha, da Inglaterra para a França, após o exílio político que o jovem soldado cumpriu. A viagem num barco pequeno, nomeado como chasse-marée, pequeno navio de dois mastros, (de acordo com o dicionário Domingos de Azevedo), enfrenta uma tempestade em alto mar, tendo o grumete que fazer à noite um aterramento forçado, por se quebrar a âncora. O relato deixa transparecer um tom mais de memória que de autobiografia, refinada elaboração literária, agradável surpresa. Uma frase retenho da primeira leitura: “Dois ingleses ridículos são indubitavelmente as duas cousas mais ridículas deste mundo”. Outra frase: “Aos vinte anos, a nossa alma, viçosa e virgem, tem afectos para derramar com mão larga por tudo o que nasceu e cresceu junto de nós; por todos aqueles que nos ensinaram a balbuciar as primeiras palavras e nos guiaram nos primeiros passos no caminho da vida”. O desenvolvimento dessa ideia acaba num mimo, nessa pérola, fresca e mediterrânea: “Para achar deleite em vaguear fora do nosso ninho paterno, é preciso haver passado a idade das esperanças; é preciso ter já calcado aos pés, inteiramente sugado, o pomo das ilusões, e assistir ao drama da existência, não como ator possuído do seu papel, mas como espectador indiferente, que sabe ser essa drama um embuste, algumas vezes atrativo, mas sensabor as mais delas; é preciso ser homem; e eu tinha então vinte anos”. Sem querer aplicar ao pensamento final o rigor escolástico, dizer que não se é homem até os vinte anos, quando sabemos que o que está em foco é de outra natureza, não deixa de ser inesperado ler isto em Alexandre Herculano, tido como uma reserva moral, uma das glórias de Portugal. Aos vinte anos não se tem maturidade suficiente para suportar algo tão cruel como o exílio. A fama de sisudo, carrancudo, solene sofre um abalo. Corro o risco de alçar da matéria principal o que é acidente, mas não pretendo aprofundar análise, nem hesito em fazer o recorte. É uma reflexão ao correr da pena. Que tem sua graça, lá tem.

De imediato, percebo haver alguns volumes de nenhum interesse para o homem do século XXI, pelo menos uns três volumes de cartas (versando assuntos do cotidiano, a colheita e fabrico de azeite, a colheita de abóboras, peras, encomenda de dinheiro, reformas de prédios e obras de alvenaria). Alguns “opúsculos” aparentemente anódinos, dissertando temas excessivamente pontuais e datados, como o anticlericalismo do autor, a emigração, as congregações religiosas, a relevância das casas pias, além de reflexões a respeito de contextos bastante miúdos, opiniões sobre obras menores da literatura portuguesa, revelam pleno domínio das potencialidades argumentativas, o gosto pela polêmica e a variada extensão de seu interesse. Na correspondência a amigos de Lisboa, estando em causa pequenos favores e diligências, não falta a referência ao rapaz (o serviçal) que porta os recados e as encomendas. Não se pode esquecer que o intelectual, a partir de determinada época, em que estava no centro das atenções, retirou-se à quinta de Vale de Lobos, para dedicar-se à atividade de agricultor e lavrador, fugindo às luzes e futilidades das grandes cidades (Porto, Lisboa). No entanto, é a obra (quase) completa do grande historiador. Percebe-se, mesmo numa aproximação breve, de voo de pássaro, que o autor mantém sempre uma tendência moralista, apontada por Nemésio: a arte para Herculano é arte de persuasão: “Por debaixo do poeta e do prosador sopitava um complexo de moralista”.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Entrevista para a Rede Minas



            A entrevista à Rede Minas de televisão não me agradou em cheio. Sei lá, fiquei nervoso, não respondi com coerência e objetividade a todas as perguntas, saí pela tangente umas duas vezes, o aparato tecnológico na sala de casa me deixou tenso. A culpa é minha. Falta de hábito, receio de dizer bobagem. Guga Barros, a entrevistadora, é muito simpática, as perguntas eram interessantes e pertinentes, de quem realmente leu o livro. O Marcelo Miyagi tem excelente astral. Gravada sem interrupção, durou uns quarenta minutos. Para mim, uma eternidade.

      O foco era Outono atordoado, o romance premiado do final do milênio (Cone Sul, 2001), esgotadíssimo. Só se encontra em sebos. Escrito como uma forma de ajuste de conta com a cultura européia e a tradicional família mineira. Só que na hora não falei o que deveria ser dito. Guga fez umas perguntas-pegadinha. É isso mesmo. Aí entra em cena o jogo de despiste, você tenta amparo na teoria, mas acaba acaba tropeçando, a insistência em negar alguma coisa se volta contra nós mesmos. Somos humanos, erramos. Somos humanos, nos perdemos em algumas situações. Regina ouviu da escada no andar de cima. Comentou depois, no começo eu parecia estar numa sala de aula. Que fazer? O uso do cachimbo deixa a boca torta. O tom professoral às vezes vem como atitude de defesa. Alguma coisa valeu a pena. Vamos esperar pra ver, editada.


      O programa Imagem da palavra com minha participação vai ao ar dia 4 de outubro, domingo, às 17:30. Reprisado quinta-feira às 22:30 e sábado às 21:30.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Carta de Clarice Lispector




      Atendendo a solicitações, divulgo a carta de Clarice Lispector a mim endereçada. O motivo da correspondência, como relatado em Mosaico insólito, teria sido uma resenha sobre Visão do Esplendor, na qual, traído por uma matéria sobre a autora, publicada em revista de grande circulação, se afirmara que ela escrevia "em transe". Trata-se de documento único de Clarice, rebatendo a concepção de que sua escrita pudesse ter qualquer afinidade com a escrita psicografada, a escrita automática ou a inspiração visionária. A autora de A hora da estrela discute seu processo criador, privilegiando o interesse atento à dinâmica e gestos do cotidiano, do qual absorvia a inesgotável teia de sentidos.
      Se há irritação em Clarice, e tudo indica haver, teria como ponto de partida o título do despretensioso artigo: "Wander & Clarice". Não deve ter gostado. Ser referida em segundo lugar, após um banal conetivo?


Publicada no Suplemento literário do Minas Gerais (11 out. 1975), em Mosaico insólito (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006), referida em diversos trabalhos acadêmicos, é a primeira vez que é disponibilizada em fac-símile.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Marc Chagall em Minas




Belo Horizonte passa a integrar o circuito restrito de cidades dotadas de condições técnicas para sediar grandes mostras internacionais. A dupla atração Marc Chagall e Auguste Rodin, na Casa Fiat de Cultura, é uma oportunidade rara para conferir a obra de dois mestres das artes plásticas da modernidade.


Por nada perderia a chance de ver a obra de Chagall (1887-1985), representada em momentos significativos de sua produção. Os quadros e gravuras são representativos de seu envolvimento com as vanguardas do início do século XX, como o surrealismo e o cubismo, procedentes de coleções particulares ou museus de cinco países (Rússia, Itália, França, Suíça e Brasil).
      Com ênfase em dois suportes (a pintura e a gravura), a exposição apresenta 302 trabalhos excepcionais, revelando a estreita relação do artista com a literatura. Dos sete módulos, quatro atestam a criação a partir de obras literárias: “Les âmes mortes”, com 96 gravuras de reminiscências da Rússia, muitas inspiradas em obras literárias, em especial o romance do mesmo título de Gogol; “Fábulas”, com 23 guaches, criadas nos anos 20, baseadas em La Fontaine; a belíssima série “Dafne e Cloé”, 43 guaches, publicadas em l961; a série inspirada na Bíblia, com 105 gravuras, elaboradas entre 1931-1939.


      Diante de material de tamanha extensão e excelência de efeitos, o espectador se emociona e ali ficaria horas e horas, literalmente embevecido. Acaba voltando para rever detalhes que passam despercebidos à primeira vista. Os sonhos e a fantasia do pintor nos envolvem, como num sortilégio mágico, habitado de enigmas, pássaros e répteis (ou formas que sugerem animais alados ou rastejantes) que emergem de corpos humanos, reveladores de estranhas associações. Sem descurar a sátira e o conteúdo social predominante em “Almas mortas”, é impossível ficar indiferente às soluções cromáticas, os soberbos tons de verde e azul, à atmosfera onírica (e paradisíaca) das gravuras dedicadas à celebração do amor, em “Dafne e Cloé”.


Casa Fiat de Cultura. Rua Jornalista Djalma de Andrade, 1250. Belvedere, Nova Lima, MG.
A exposição fica até 04 de outubro de 2009. Transporte e entrada gratuitos.
O transporte gratuito sai da Praça da Liberdade (em frente à antiga Secretaria de Educação).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quando os demônios descem o morro



UM LIVRO POR MÊS: Quando os demônios descem o morro

Rui Mourão, unido a Fábio Lucas, Affonso Ávila, Laís Corrêa de Araújo e Heitor Martins, desenvolveu, nos anos 50/60, em Minas, um movimento literário de orientação político-social. Tendência, o nome do grupo, sinalizava para o princípio de evoluir dentro da tradição. Após a estreia com a novela As raízes (1956), publicou obras fundamentais na ficção, tais como Curral dos crucificados (1971), Cidade calabouço (1973), Monólogo do escorpião (1983), Boca de chafariz (1991), Invasões no carrossel (2001). O mais recente romance de Rui Mourão, Quando os demônios descem o morro, empreende uma dupla empreitada. Mistura a linguagem ficcional e a linguagem museológica. O cenário fictício envolve Ouro Preto. O fantasma da História perpassa diversas páginas:

“Passou-me a impressionar o desassombro com que aquele agregado de casas geminadas, a princípio desgraciosas, vencera o passado e resoluto encaminhava-se para outros tempos. Perplexo com a novidade diante dos meus olhos estampada, recolhia-me ao mesmo tempo desconcertado e atraído. Sobravam por todo lado imóveis em mau estado, paredes abandonando o próprio prumo, rebocos enegrecidos com evidentes sinais de infiltração, seculares esteios de madeira sustentando forros bambeados em barriga, pequenas lojas entulhadas, prateleiras em amontoado desarranjo, pequenos mostruários fora de moda, de estrutura de madeira grossa manchada de repinturas” (p. 16).

O museu apresentado no pano de fundo é real, o Museu da Inconfidência, dirigido pelo autor há três décadas. Personagens reais e fictícios mesclam-se em conflitos um tanto obscuros. O esforço empreendido em reformular estruturalmente (e conceitualmente) o Museu da Inconfidência, envolve todo um processo doloroso de mudança de consciências e comportamento, com reflexos no corpo administrativo e técnico da instituição e na cidade ao redor. Em certo sentido, ultrapassa os muros do Museu, inserindo-se numa evolução mais ampla do mundo como um todo. A intersecção dos dois discursos – o ficcional e o museólogo – implica um adensamento de expectativas, uma complexidade estrutural, em função de sutilezas conceituais, pouco claras ao leitor comum. A ideia de que ambos operam e são linguagem é, no entanto, extremamente produtiva:
“O museu busca se comunicar através da disposição de documentos materiais, testemunhos de realidades, segmentos incompletos que deixam vãos a serem preenchidos pela memória cultural do visitante. O romance, a novela ou conto interage com aquele que realiza a sua leitura através de tomadas subjetivas, percepções imateriais, reconstituições interrompidas que deixam vãos a serem preenchidos pela experiência de vida de quem dele se aproxima.” (p. 37).
Nos dois primeiros capítulos, ao se debruçar sobre o passado, o narrador autobiográfico flagra eventos, objetivos e aspirações relacionados a determinado contexto literário dos anos 50 e 60 no Brasil. Os desdobramentos do modernismo mineiro são referidos, numa visão panorâmica, em que as gerações de Vocação e Tendência ganham especial relevo. Ao assumir as funções de Diretor do Museu da Inconfidência, o protagonista vivenciava a franca expansão de sua obra literária.

“A convivência com a cultura da cidade transferiu-me uma infiltrada, acumulada sabedoria, que progressivamente passou a habitar-me. Minhas leituras por lá nada tinham de sistemático. Não envolvendo planejamento para a obtenção de determinado resultado, não havia nelas objetividade. A consciência que em mim acabou se instalando, a mim mesmo muito surpreendeu. De uma hora para outra, sentia-me na posse de espaçoso e mais vasto conhecimento do que me cercava. Enquanto procurava revolucionar a repartição em que trabalhava, era a mim mesmo que revolucionava. Tornava a nascer como escritor? (p. 19)”

Em decorrência de ousadas reformas implantadas no Museu, o narrador sofre retaliações do corpo técnico da instituição e de segmentos políticos da cidade. Acaba preso na “Polícia Central” de Belo Horizonte, num processo manipulado por interesses variados. Recluso, escreve:
“Agora estou aqui, um pouco lerdo, mão pesada, raciocínio embotado, tentando desenferrujar um instrumento de trabalho colocado de lado pelos dramáticos e absorventes acontecimentos dos últimos meses” (p. 19).
O estilo excessivamente formal, solene, retorcido, às vezes tendente ao rococó, se, de um lado, ajusta-se ao cenário e motivo barrocos, por outro lado, resulta monótono e imponente. O recurso de misturar personagens reais e ficcionais (de excelente efeito no romance Boca de chafariz) neste assume um formato algo combalido, meio artificial. A trama envolve à exaustão eventos rotineiros do cotidiano museólogo, correndo o risco de incorrer em insípidos expedientes administrativos, de extração interna, pouco atraentes e impactantes. O discurso ensaístico, ao questionar os rumos da atividade museológica, contribui ainda para dilatar o fosso que distancia a trama do intuito ficcional, aproximando-se do estatuto do relatório.

Sou um admirador da produção ficcional de Rui Mourão, à qual dedico dois artigos no livro Mosaico insólito. Este romance não se alinha, no entanto, no mesmo patamar de títulos anteriores, como Curral dos crucificados, Monólogo do escorpião e Boca de chafariz. Creio haver demonstrado em outros textos a importância fundadora de Curral dos crucificados para a ficção brasileira, a ponto de se apresentar como núcleo gerador de outros grandes romances, como é o caso de A festa de Ivan Ângelo. Não deixa de ser importante contribuição para a ficção híbrida almejada pelos pós-modernos, na tentativa de questionar e documentar o trabalho dos intelectuais, quando circunstâncias complexas os posicionam diante do peso e das vicissitudes da História.

MOURÃO, Rui. Quando os demônios descem o morro. São Paulo: Casa & Palavras, 2008.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo IV


    1. Ivan Ângelo e Silviano Santiago, escritores que viriam a produzir posteriormente em separado trabalhos notáveis em ficção, têm significativa estreia conjunta em Duas faces (1961). Mesmo enveredando depois nas trilhas do romance, os dois não abandonam o conto. Ivan Ângelo a ele retornaria em A casa de vidro (1979) e A face horrível (1986), desvelando com fina ironia e habilidade técnica as armadilhas escondidas sob os disfarces do cotidiano.
   2. Jaime Prado Gouvêa, na sequência de intensa aprendizagem na redação do Suplemento literário do Minas Gerais, lança Areia tornando em pedra (1970), a que se seguiram outros títulos, numa gradação ascendente em qualidade e densidade, sem abandonar a agilidade, o vigor juvenil, como Dorinha, Dorê (1975) e Fichas de vitrola (1986), voltados para a revisitação crítica do passado, a sátira às convenções e o interesse pela condição humana.
    3. João Antônio, após o premiado Malagueta, perus e bacanaço (1962), enfocando a malandragem paulistana, publicou Casa de loucos (1971), Leão de chácara (1975) e Abraçado ao meu rancor (1986), histórias populares, vazadas em linguagem direta. Cultivou exclusivamente o conto, com extremado rigor e poder de síntese. A pesquisadora Regina Dalcastagnè discute o tom paternalista desse narrador: “Em seus contos ele se utiliza daquele sentimentalismo de classe média em relação a determinadas figuras do submundo urbano que não se apresentam como uma ameaça efetiva para as elites. Suas personagens são bonachonas, engraçadas, sofredoras, nunca perigosas” (DALCASTAGNÈ, 2002, p. 49).
     4. Uma mulher, Lucienne Samôr, tira o sono de editores e leitores, com seus contos góticos, algo macabros, habitados por personagens desvairados e tensos, nos relatos sombrios e nervosos de O olho insano (1975).
       5. Luiz Fernando Emediato, em Não passarás o Jordão (1977), Os lábios úmidos de Marilyn Monroe (1978), aborda questões relacionadas à repressão política, a tortura, a violência e o preconceito, numa perspectiva irônica e cética, incapaz de sufocar os arroubos juvenis.
    6. Luiz Gonzaga Vieira publica Aprendiz de feiticeiro em meados dos anos 70, surpreendendo pela proposta refinada e lúcida de adentrar nos subterrâneos da classe média, não apenas em seus aspectos socioeconômicos e políticos, mas com interesse na angústia existencial.
     7. Luiz Vilela, precocemente revelado e premiado em Tremor de terra (1967), seguido de No bar (1968) e Tarde da noite (1970), entre outros, tem papel importante na radical ruptura com técnicas tradicionais, revisão crítica de mitos e valores arraigados, refinada elaboração de material colhido no cotidiano.
    8. Manoel Lobato, mineiro de Açaraí, é conhecido pelos contos de Garrucha 44 (1961), Contos de agora, (1970), Os outros são diferentes (1971), Flecha em repouso (1977), permeados de conflitos gerados pela neurose, submissão a preconceitos e enquadramentos morais. “Aparentemente o conto é uma peça fria, impessoal, que ele leva ao microscópio, uma radiografia que não permite extrapolações. Mas se Manoel Lobato consegue anular a participação de quem escreve, não impede que ela se transmita ao leitor. É difícil não se sentir a angústia de sua pequena e rota humanidade” (PÓLVORA, 1975, p. 155).
    9. Mario Garcia de Paiva, vencedor do Concurso de contos do Paraná (1971), publica livros notáveis, em que o cenário urbano às vezes dá lugar a uma ambientação de ficção científica, como Os planelúpedes (1975), Dois cavalos num fuscazul (1976) e Os agricultores arrancam paralelepípedos (1977).
    10. Nélida Piñon, após algum hermetismo inicial, realiza uma ficção comprometida com a captação de fluxos de consciência, desde Tempo das frutas (1966), passando por A casa da paixão (1972) e Casa de armas (1973). A autora “...cumpre galhardamente, no entanto, o castigo dos que preferem por inclinação de personalidade ou atitude crítica, a análise das impressões ao relato de acontecimentos” alinhando-se, ainda no dizer de Hélio Pólvora, “no grupo de escritores nacionais e estrangeiros que empresta à literatura imaginativa as instrumentalidades da orquestração onírica” (PÓLVORA,1975, p.136-137).
     11. Roberto Drummond, mineiro de Ferros, descobre uma forma arejada de criticar a sociedade de consumo, em textos experimentais, impregnados de sátira política e social e citações do universo pop. Seu principal livro talvez seja A morte de D. J. em Paris (1975), o conto-título é admirável, ao apresentar a inquietante criação de uma Paris imaginária pelo protagonista.
     12. Sérgio Faraco motiva predominantemente seus contos em temática social, abordando os desdobramentos políticos dos anos de autoritarismo, tais como a violência e a repressão, quando não reforça a nostalgia de um passado irreversível, nas coletâneas Depois da primeira morte (1974), Noite de matar um homem (1986), A dama do Bar Nevada (1987), O chafariz dos turcos (1990), Dançar tango em Porto Alegre (1999).
       13. Sérgio Sant'Anna, após a estreia (O sobrevivente, 1969) e de viver uma temporada em Minas, daria continuidade a uma produção literária de elevada consistência criativa, publicando Notas de Manfredo Rangel (a respeito de Kramer) (1973) e O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), em que tenta captar com lucidez as aspirações e conflitos urbanos. Sobre o seu processo, afirma Hélio Pólvora: “O diálogo é o sistema nervoso do relato. Através dele, as personagens denunciam o que são, o que pensam e por que chegaram à sua dolorosa condição atual. Cenas ágeis, convincentes, como se o ficcionista tivesse o poder de, parando o tempo, eternizar imagens, falas e conflitos que já trazem em si mesmos o diagnóstico” (PÓLVORA, 1975, p. 151).
        14. Silviano Santiago, após as duas novelas enfeixadas em Duas faces (1961), em parceria com Ivan Ângelo, daria a lume os contos experimentais e de estrutura sofisticada de O Banquete (1970), receptivos a uma rebeldia disciplinada e inovações pós-modernas. Renomado teórico da literatura e romancista, o autor volta à narrativa curta em 1997, com Keith Jarret no blue note.
      15. Wander Piroli, egresso do jornalismo policial, aborda, com uma objetividade implacável, a exploração do homem pelo homem, a marginalização social, sem abandonar uma forma sensível e impactante, em obras singulares, como A mãe e o filho da mãe (1966), A máquina de fazer amor (1980).

Referências bibliográficas:
BASTOS, Alcmeno. Ficção: histórias para o prazer da leitura (uma revista literária dos anos 70). Estudos de literatura brasileira contemporânea. n. 23, Brasília, jan./jul.2004, p.136-150.
COUTINHO, Afrânio; SOUZA, J. Galante. Enciclopédia de literatura brasileira. I e II vol. São Paulo: Global Ed./ Fund. Biblioteca Nacional/ Academia Brasileira de Letras, 2001.
DALCASTAGNÉ, Regina. Uma voz ao sol: representação e legitimidade na narrativa brasileira contemporânea. Estudos de literatura brasileira contemporânea. n. 20, Brasília, 2002, p. 33-77.
LUCAS, Fábio. A ficção giratória de Lygia Fagundes Telles. Cult. 23, p.12-15, São Paulo, junho 1999.
MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Livros técnicos e científicos editora, 1978.
PÓLVORA, Hélio. Graciliano, Machado, Drummond & outros. Rio de Janeiro: Francisco Alves Ed., 1975.
Status, 105-A, São Paulo, abr. 1983.
VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O conto brasileiro contemporâneo III



Vinte contistas dos anos 70

     Vinte contistas dos anos 70. Surgiram na época brincadeiras (algumas ásperas) no tocante ao boom dos contistas mineiros. Quase quarenta anos depois, é possível uma avaliação mais serena. Escritores paulistas, gaúchos e paranaenses (em escala menor) também surgiram com força naquele período. Ricardo Ramos teria sido o criador da lenda, envolvendo a saudável praga cultural que se cristalizou: a proliferação de contistas mineiros; dizia para não se chutar lata no meio da rua porque ela podia estar cheia de contistas mineiros. Alguma imprensa paulista, a cada autor de Minas lançado, insistia no mote: mais um autor mineiro. A ideia, subalterna e subliminar, era que, enquanto o carioca curtia a praia e o paulista ganhava dinheiro, o mineiro escrevia conto como se escrevesse soneto. Se a intenção era minimizar a importância do autor mineiro, o tiro saiu pela culatra. A própria revista Status, receptiva à boa ficção, chegou a editar um número exclusivo de contos mineiros eróticos (n. 105-A, abr. 1983), salientando a sua qualidade, ao registrar que os autores escreviam “admiravelmente bem” suas histórias.
     A rotulação da década de 70 como época de “vazio cultural” (Zuenir Ventura) carece de uma compreensão modalizada e de uma mais abrangente contextualização, sob o risco de serem descreditados a poesia marginal (Cacaso, Leminski), a consolidação do conto urbano e o Neoconcretismo nas artes. A falta de incentivo, a circulação restrita por conta de tiragens quase artesanais feitas por editoras de pequeno porte (o caso da extinta Interlivros, de Belo Horizonte), a repressão política (“os negros verdes anos”, segundo Cacaso) são aspectos a serem considerados na avaliação da produção cultural da época.
     Alguns estreiam como contistas, revelando-se depois brilhantes romancistas ou poetas. Outros escrevem exclusivamente contos. Não enveredam por outros gêneros. Podem até publicar romance, poesia ou ensaio, mas deixam explícita sua opção pela história curta. Esse aspecto reforça uma fidelidade ao gênero, algumas vezes reveladora de exclusividade.
     Os critérios da seleção de nomes, embora subjetivos, tentam erigir algumas balizas e pontos de apoio, privilegiando a qualidade, a originalidade e os marcos cronológicos. Determinados escritores surgem excessivamente marcados pelo epigonismo, dada a presença e diluição em seus textos de processos e temas antes tratados por autores seus contemporâneos. O limite temporal recortado (anos 70) abarca, em demarcação um tanto flexível, a produção lançada entre 1965 a 1979. Apesar de fluido, o recorte temporal origina-se um pouco antes. É preciso atentar para o advérbio de tempo. Nesse recorte, de tendência historiográfica, ligado à história da literatura, não são contemplados nomes surgidos depois do marco final.       Como João Gilberto Noll, cuja estreia ocorre nos anos 80 (O cego e a bailarina, publicado em 1980). (A entrada dos autores segue a ordem alfabética do primeiro nome).
     Caio Fernando Abreu é hoje um autor de merecida e considerável fortuna crítica. Resultante de sua adesão incondicional ao universo gay? Obviamente que não. A visão niilista misturada à ideologia das minorias, num contexto histórico e filosófico propício ao reconhecimento da diferença, em todas as suas manifestações, o ingrediente irônico, sabiamente dosado, o temperamento sensível ao malogro das utopias pós anos 60 e (por que não?), a tragédia pessoal contribuem, ao fim e ao cabo, para o crescente interesse em relação à sua obra. Seus principais livros compreendem basicamente contos: O ovo apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos mofados (1983), Os dragões não conhecem o paraíso (1988).
     Domingos Pellegrini é um contista admirável pela a força emotiva, o ritmo ágil, a linguagem coloquial, carregada de vivacidade, sensorialismo e sabor pitoresco, além do insuperável domínio no tratamento de dramas familiares e juvenis. Prêmio Jabuti em 1977, com O homem vermelho, ficou estigmatizado, de forma positiva, pela expressão do arroubo e iniciação sexuais de jovens, tema recorrente em outros livros (Paixões,1884 e Os meninos crescem, de 1986, em especial). Os dois livros merecem registro também pela edição esmerada e cuidada concepção gráfica. Em Os meninos crescem, quatro contos atestam alto nível de densidade técnica e espessura humana: “A noite em que encontrei meu pai”, “O aprendiz”, “A última janta”, “Subterrâneos”. São grandes realizações ficcionais, em qualquer língua do mundo.
     Duílio Gomes, hábil criador de atmosferas, quase sempre sufocantes, surpreende a crítica pela ousadia temática, linguagem direta e tom jovial, descontraído e irreverente de suas histórias, breves mas incisivas, presentes em O nascimento dos leões (1975), Verde suicida (1978), Janeiro digestivo (1983).
     Elias José explora o cotidiano, com uma linguagem abusadamente lírica, acoplada a uma temática urbana, com pitadas de realismo mágico, desde as incursões no chamado miniconto de A mal-amada (1970) e O tempo, Camila (1971) aos livros posteriores, Inquieta viagem ao fundo do poço (prêmio Jabuti em 1974), Um pássaro em pânico (1982), O grito dos torturados (1986). Hélio Pólvora embirrou com o rótulo de miniconto: “...o problema de encurtar ou alongar o conto não deveria preocupar Elias José. Ele é um desses ficcionistas que precisam de maior espaço gráfico. Sua forma de expressão, definida nas melhores peças de A mal-amada, impõe a montagem paciente, a superposição de detalhes emotivos e de constatações existenciais. (...) Neste sentido, seria conveniente que o contista enfraquecesse a fiscalização, ausentando-se o mais possível do texto, tirando do texto a impressão de coisa composta” (PÓLVORA, 1975, p. 154).
     Ignácio Loyola Brandão, a princípio tendo o jornalismo como atividade paralela (até 1982), conquistou um público fiel com suas histórias verticais e inquietantes, escritas em linguagem elegante, de funda e densa ressonância, tal como em Depois do sol (1965), Pega ele, silêncio (1976), Cabeça de segunda-feira (1983).